Rosas de Inverno

Maio 20, 2008 by yohankoh

Ele se sentou à cabeceira, não que fizesse questão, pelo contrário, sequer queria uma mesa com cabeceira, mas assim como a cortina florida (com petúnias) e o papel de parede de seu quarto, fora idéia de sua mulher – para manter um nível inconsciente de hierarquia, é importante para as crianças. Quem mandou casar com uma psicóloga? Serviu-se de duas fatias de pão integral sete grãos, e uma generosa porção de geléia de morango, para equilibrar. Seu filho mais velho logo desceria também para tomar o café-da-manhã - a menor tinha apenas cinco anos e ainda estudava de tarde.
Alguns poucos minutos depois, enquanto terminava seu sanduíche e começava a se servir do café fraco demais de sua mulher, escutou os passos apressados na escada de madeira que indicavam que Claudinho estava descendo.
- Bom dia, meu velho! – disse o menino sorridente.
- Está alegre hoje, filho…
O menino não respondeu nem continuou a conversa, sentou-se também sem prestar mais atenção no pai e serviu-se de cereais de milho, leite e…
- Não tem fruta, pai?
- O que é Claudinho? – respondeu abaixando sua caneca que estava a meio-caminho da boca.
- Morangos, banana… “Fruta”!
Ele pensou em retrucar dizendo que sabia o que era uma fruta, só não havia escutado direito, ou melhor, até tinha escutado, mas questionou como às vezes fazemos: para dar algum tempo de pensar na resposta, no entanto não se sentiu motivado pra tanto.
- Acho que sua mãe trouxe maçã e pêra, devem estar na geladeira…
- Para evitar aqueles mosquitinhos chatos, né? – Cláudio imitou a mãe.
- Pois é, creio que sim, mas vão ficar pretas, então é bom comê-las rápido – disse pensando que não teria jeito de qualquer forma, “ninguém é tão rápido assim”.
- Pêra e maçã não têm nada a ver com Sucrilhos – escutou o filho reclamar, mas já tinha levantado novamente a caneca de café e dessa vez nada o iria impedir de beber aquilo enquanto ainda estivesse quente (ou o mais próximo disso que poderia estar).
- Concordo – disse enquanto sorvia o líquido já gelado.
Foi então a vez de Cláudio pensar em reclamar, mas parou no meio da fala. Depois diria direto pra mãe.
Para dizer a verdade, as manhãs eram quase sempre assim, e as tardes e noites seguiam na mesma toada. Bianca, sua mulher, saía de manhã para o escritório próximo aos Jardins – antes que todos resolvam querer sair e eu resolva querer voltar, dizia ela, e sempre que lembrava disso, Ricardo Prado (sim, esse era seu nome, mas era mais conhecido como Richard ou, Ri, ou “meu velho”) pensava que era o mais próximo que sua mulher poderia chegar de uma boa piada já havia algum tempo –, dava um beijo em seu rosto ainda na cama e deixava o café pronto. Claudinho descia e reclamava de alguma coisa sem perder o bom-humor usual, com seu uniforme do colégio e o sorriso ingênuo no rosto e logo depois do menino sair ele subia para acordar Bruninha, sua filha menor, antes de ele próprio sair para o trabalho. Era arquiteto civil e trabalhava numa empresa de médio porte próxima ao Brooklin, não muito longe da sua casa, mas infelizmente suficiente para precisar usar o carro: um Fiesta Sedan, prata, já com cinco anos a mais do que ele gostaria que tivesse.
Nada disso o incomodava, não mais, a não ser aquilo; aquilo de seus filhos – pois não era só Claudinho, Bruna também – de parecer nem sequer perderem tempo reclamando com ele de alguma coisa, preferiam “falar direto com a mãe”. Toda vez era como se uma pequena agulha cuidadosamente colocada num lugar que doa, próximo ao peito, fosse um pouco empurrada mais para dentro, só pra lembrá-lo que está ali e que, convenhamos, não vai sair dali.
- Velho?!
Ricardo não respondeu.
- O que foi, meu velho? – repetiu Cláudio enquanto terminava seu cereal. – Pai?!
Foi só então que ele escutou e voltou de seus devaneios.
- O que foi, filho? Precisa de alguma coisa? Não vai se atrasar, não é?
- Não, meu velho - respondeu o menino, tomando um gole de suco de laranja de caixinha (pelo menos isso Ricardo conseguira convencer a mulher que seria melhor do que ter de espremer frutas todas as manhãs para que tivessem o suco 100% natural, pensava na coisa com um orgulho débil).
- Bom! Isso é bom. Eu também não posso vacilar, já já tenho que subir e acordar sua irmã.
- A Bruninha já ta de pé eu acho, vi o som da TV ligada no quarto dela quando passei – retorquiu o menino sorridente.
- Hum… – Ricardo tinha um ar ponderado e sem ânimo – de qualquer modo, vou lá conferir assim que você for pra escolinha.
- Escolhinha?! – perturbou-se o garoto. – Já estou na sexta série! Ano que vem vou pra sétima.
Assim esperamos, pensou Ricardo, mas não disse.
- Ah, é mesmo, desculpe… – falou com a voz baixa – já está um garotão, hein?
Cláudio tentou detectar qualquer resquício de sarcasmo ou ironia na fala do pai, mas não pôde. Não havia. E então deu um sorriso ainda maior e se animou ainda mais.
- Você sabe o que vou ser quando crescer ainda mais?
- Um velho como o seu pai, se Deus quiser!
- Não! – aborreceu-se o menino – Não to falando disso!
- Eu sei – ele explicou – só estou brincando.
Cláudio não riu. Mas logo se animou novamente e continuou contando enquanto terminava o suco e já arrumava as coisas pra deixar a mesa.
- Vou ser músico e artista de cinema, como a Norah Jones ou o Bob Dylan!
Ricardo ficou quieto. Ao ouvir seu filho dizendo aquelas palavras alguma coisa doeu dentro dele e não tinha nada a ver com aquela agulha ou qualquer outra dessa vez, era alguma outra coisa.
Ao ver que o pai apenas o olhava, Claudinho continuou sem perder o ânimo, gostava quando lhe prestavam atenção.
- Estou treinando com o violão todos os dias – é verdade, estava mesmo, e todos na casa esperavam que ele aprendesse rápido e achavam uma boa idéia “da mãe” ter comprado um violão ao invés de uma guitarra – e já toco Stairway to Heaven quase até o final, tirando aquele solinho besta do meio, e já falei com o Paulinho, aquele amigo meu lá do time que também toca, porque o pai dele é produtor de vídeo e o Paulinho disse que pode me dar uma força com a minha carreira. Aí faço alguns clipes e tals, sei que o começo é difícil, li em várias revistas o pessoal das bandas famosas falando… Sabia que o Metallica antes da fama teve que pedir uma torradeira ao pessoal do Anthrax, porque tavam duros como pedra?… Mas depois, se começar a dar certo é só seguir e estar sempre na mídia, fazer falarem de você, sabe? E como já vou ter feito alguns videoclipes, depois a minha carreira de ator vai ficar mais fácil também, não acha?
A coisa toda parecia estar muito certa na cabeça do menino, Ricardo pensou, no mínimo já tinha feito esse discurso para os amigos – e a mãe –, várias e várias vezes, sempre acrescentando um ponto importantíssimo de como conseguiria alcançar tudo isso de maneira certa, e apesar de difícil no começo, simples.
- Eu também já tive sonhos, filho – ele diz, quase que deixando as palavras escaparem sem nem sequer um sorriso amarelo para acompanhar.
Claudio levanta e coloca os pratos e copos na pia como o pai o havia ensinado a fazer. Escova os dentes rapidamente no lavabo anexo convenientemente à cozinha e despede-se com um Tchau já perto da porta que fecha atrás de si depois de sair para pegar a perua. Vai pra escola sem entender muito bem o que o pai quis dizer.
Ricardo termina seu café-da-manhã sem pensar em mais nada ou trocar qualquer palavra com ninguém, sobe e chama a filha que reclamou do tempo e que não teria “parquinho” na escola naquele dia. Desce novamente e lava a louça deixada por ele, o filho e a mulher antes de sair. Prepara rapidamente um lanche e um copo de café-com-leite para Bruninha e deixa sobre a mesa à espera da menina.
Antes de sair desce mais um lance de escadas até o que seria o porão, mas que na verdade era só um espaço da casa que destinaram para jogar as coisas que não usavam com freqüência ou que haviam se apegado demais para simplesmente jogarem fora. Se aproxima de um armário antigo de madeira escura e já bastante comida por cupins que nunca foram achados – talvez tenha sido o tempo mesmo – e abre a primeira gaveta fechada a chave. Um cheiro de velho chega às suas narinas, mas ele não parece se importar. Lá dentro uma pilha de folhas escritas à máquina e ligeiramente amareladas descansa um longo sono. Na primeira delas, logo em cima, podia ler um título: “Rosas de Inverno”, e logo abaixo, em itálico “um romance de Ricardo A. Prado”. Passou-se alguns momentos em que ambos, folhas e Ricardo, pareceram um só, imóveis e olhando um ao outro até que ele fechou a gaveta com força e trancou novamente, dando duas voltas na chave.
Ainda podia ouvir o estrondo seco da gaveta se fechando enquanto subia a escada outra vez e caminhava alguns passos até a mesa onde repousava sua valise preta de fecho dourado, bem parecida com a que seu próprio pai usava quando era vivo. Pegou-a e também o canudo com os projetos que levara para terminar em casa, no dia anterior. Deu uma última olhada para a casa silenciosa, e o lanche ainda à espera da filha sobre a mesa, ajeitou um pouco os cabelos no pequeno espelho próximo à porta e saiu.

小親愛的 (Little Darling) - Parte 1/2

Fevereiro 16, 2008 by yohankoh

Ele chamou o garçom até sua mesa com um aceno. O sujeito sorridente chegou rápido.

            – O que vai ser hoje, senhor - disse ele.

            – Me faz um favor?

            – Claro senhor. Estamos aqui para isso! - parafraseou.

            – O drink da casa para aquela moça ali. - apontou.

            – Um V8 para aquela chinesinha ali? - confirmou prestativo.

            – Perfeito! Com fogo e tudo.

            – Claro, senhor, mais alguma coisa?

            – Ficaria ruim se eu pedisse um também?

            – Eu acho que não, senhor? Um V8 para o senhor também?

            – Sim, por favor.

            – Claro, meu capitão, está saindo! - sorriu com certo desdém que ele notou, mas preferiu não tecer comentário. Precisava ainda do tal favor. – Ela é a mais bonita da noite, sem dúvida. Se eu fosse o senhor chegaria beijando, sabe? Hoje em dia mulher não quer muito papo não! Acha que cê é lerdo ou até viado se falar demais…

            – Certo, vou pensar nisso! Enquanto isso me traz os drinks.

            – Podexá! Mal não vai fazer, né? - brincou com uma piscadela.

            – Pois é. - ele piscou de volta já se sentindo esgotado.

 

            Ele olhou ao redor, não conhecia ninguém, mas ao mesmo tempo pareciam os mesmos rostos de sempre. O casal à sua frente já não se amava mais e ele soube disso com poucos minutos, é impossível que ambos não percebessem se ficassem mais que esse tempo próximos um do outro. Ou então é a tal da conveniência. Ele se perguntava: “a quem isso haveria de ser conveniente?”. Ao lado dois amigos conversavam. O mesmo papo que ele mesmo já pensara em gravar para os dias que não quisesse nem gastar saliva. Apostava que ninguém sequer perceberia.

            Mais uma música iria se iniciar: Walk of Life. Ele reconheceu logo pelos primeiros acordes. Outra que, sem dúvida, poderia gravar, mas nesse caso alguém já havia feito isso antes dele; mais especificamente o Dire Straits. Do outro lado estava o sujeito sorridente com as duas bebidas sobre a bandeja flamejante. “Ao menos chama a atenção, sem dúvida!”, pensou e também sorriu. Até que foi rápido mesmo. Iria se lembrar do fato na hora de deixar a gorjeta, mas esperava que esquecesse. Não esqueceu.

            O garçom entregou a bebida, o V8 - receita secreta da casa, guardada a sete chaves… ou algumas notas de cinqüenta. Havia chegado a hora. Podia até ler nos lábios do homem: “esse é por conta daquele senhor ali”. Achou engraçado. Não o fato da frase padrão, mas o de ter sido chamado de senhor. Quando o sujeito se referiu a ele anteriormente não havia se importado porque imaginara ser de tom respeitoso - por sinal deslocado completamente do ambiente informal do bar onde estava - mas ouvindo agora (ou quase) não conseguiu deixar de achar estranho, afinal não tinha chegado sequer à casa dos trinta. Rapaz, pensou, teria sido uma opção melhor. Mas isso tudo não importava, precisava aproveitar o momento e dar seu melhor sorriso, levantar o copo como num brinde à distância, aquela coisa toda.

            Ela aceitara. Também, quem recusaria? O drink além de bonito era muito gostoso. Poderia ser um pouco mais forte, sem dúvida, mas quem se atreveria a mudar um miligrama da receita ultra-secreta? Esse pensamento o fez sorrir com mais facilidade. Temeu que houvesse sido demais, mas não foi. No mínimo ela pensaria: “que palhaço!”.

            Por outro lado, ao menos assim saberia o que ela pensara. Estava com as amigas umas duas mesas para o lado, é sempre uma situação complicada.

            Bem, o primeiro passo havia sido dado, agora era só continuar andando: keep walking. Esperou pelos primeiros goles e pelos últimos e caminhou até lá.

            – Oi, se apresentou. Você sabe por que colocam fogo nesse drink?

            – Não!

            – Pois é, e aposto que eles também não vão querer falar… - fez uma cara de ultraje. – Mas é gostoso mesmo assim, não é?

            Ela riu. Ponto! As amigas acompanharam. Ponto! Mas não todas… Bem, não importava, a tal sem-humor era feia e ele acrescentou mentalmente (provavelmente mal-amada).

            Esperou por um convite para sentar. Não houve nenhum.

            – Eu tenho um palpite… - emendou antes que fosse tarde demais. Dessa fez teriam de convidá-lo a sentar se quisessem matar a curiosidade. Saber atiçar a curiosidade de uma mulher era um dom que todo o homem deveria aprender a cultivar.

            – Ah é? - a menina perguntou. A tal feia. Mal amada e curiosa.

            Ele se sentou. Apenas com um movimento de corpo para confirmar se podia realmente. Já não tinha dúvidas, era só questão de educação. Abaixou-se um pouco, aproximando a cabeça da mesa como se contasse um segredo.

            – Por que ele é mais gostoso quente! É uma jogada de marketing!

            Deus abençoe a bebida e o álcool: elas riram de novo!

            – Olha só - disse uma delas um pouco depois - você é muito engraçado e eu não queria te desanimar, mas ela não vai ficar com ninguém hoje.

            – E quem disse que eu quero ficar? Eu sou um rapaz sério! Quero namorar, casar, ter três filhos com nomes muito legais, que demoraremos meses para escolher mas que em semanas transformaremos em diminutivos, um cachorro para eu poder reclamar com ele das coisas que os cachorros fazem porque afinal são cachorros e envelhecer o suficiente para achar divertido jogar dominó - quem sabe ser campeão do clube da terceira idade, ou amigos do bairro…

            – Ah há! - riu uma outra garota, loura com os olhos castanhos mel - é sério, a Kaori terminou o namoro de seis anos pouco tempo atrás…

            – Isso é verdade? - ele perguntou a menina que agora sabia o nome.

            – É sim - ela respondeu.

            Não houve complemento na frase. Isso foi tudo. Se ele guardara uma carta debaixo da manga essa era uma excelente hora para usá-la.

            – Tudo bem. Então façamos o seguinte - disse. – Eu sou um cara competitivo, você é competitiva?

            – Sou!

            – Pois eu sou muito mais competitivo que você! Quer competir?

            Ela sorriu. Mas não demonstrou abertura nenhuma.

            – Façamos o seguinte. Vamos apostar alguma coisa. Bem, eu aposto que consigo te beijar sem tocar os seus lábios!

            Está certo, estava longe, bem longe mesmo, de ser original, mas com relação à carta na manga: ele não tinha nenhuma carta na manga.

            – Vamos apostar vinte reais. Se eu perder, pelo menos te ajudo a ficar bêbada mais rápido, o que acha?

            Todos os olhos que haviam convergido para ele agora miravam os olhos puxados de Kaori. Ele só tinha uma chance, muito pequena, de que nenhuma delas tivesse um dia apostado uma coisa dessas com ninguém antes. E foi então a vez da sorte lhe sorrir.

            “Se você quer rir tem que fazer rir”, lembrou.

Leia o resto deste post »

Alice - Tom Waits

Fevereiro 12, 2008 by yohankoh

Alice – Tom Waits

It’s dreamy weather we’re on
You waved your crooked wand
Along an icy pond with a frozen moon
A murder of silhouette crows I saw
And the tears on my face
And the skates on the pond
They spell AliceI disappear in your name
But you must wait for me
Somewhere across the sea
There’s a wreck of a ship
Your hair is like meadow grass on the tide
And the raindrops on my window
And the ice in my drink
Baby all I can think of is AliceArithmetic arithmetock
Turn the hands back on the clock
How does the ocean rock the boat?
How did the razor find my throat?
The only strings that hold me here
Are tangled up around the pierAnd so a secret kiss
Brings madness with the bliss
And I will think of this
When I’m dead in my grave
Set me adrift and I’m lost over there
And I must be insane
To go skating on your name
And by tracing it twice
I fell through the ice
Of AliceAnd so a secret kiss
Brings madness with the bliss
And I will think of this
When I’m dead in my grave
Set me adrift and I’m lost over there
And I must be insane
To go skating on your name
And by tracing it twice
I fell through the ice
Of Alice
  Alice – Tom Waits
Tradução: Julio Moraes
É tempo de sonhos, este o nosso.
Você brinca com um galho qualquer…
Num lago congelado sob a lua fria,
Como a sombra de corvos algozes,
De meus olhos, eu via
Lágrimas caírem velozes.
E os meninos patinando,
Desenhavam o nome de Alice.
Desaparecerei em teu nome,
Mas talvez você deva me esperar,
Em algum lugar, no meio do mar,
Vejo um navio que some.
Ah! Seu cabelo, como um verde sereno
Que ondula pela maré,
A chuva sobre a janela, no sopé,
Ou ainda o gelo que derrete meu veneno.
Caralho, só penso em Alice!Eterno tique-taque, eterno ócio,
Não tiro os olhos do ponteiro;
O mar agita o barco sem propósito,
E o corte da navalha é tão certeiro!
Só um fio ainda me prende nessa bosta,
Vagar naquele porto, na costa.
De repente, um beijo secreto:
Êxtase e paixão.
Vou ficar pensando nisso, estou certo
Quando estiver enterrado dentro do caixão.
Mas devo estar pirando!
Quando ponho os patins e ando
Naquele nome que escreveram no gelo,
Duas vezes ainda, querendo tê-lo.
Mas temo cair sozinho no frio
De Alice…

break on Through

Janeiro 24, 2008 by yohankoh

Ler ao som de Stay: U2.

Já era sua terceira noite em claro. Novamente estava muito nervosa para dormir, o sono simplesmente não vinha; a cabeça ocupada demais ruminando tudo que havia acontecido nos últimos dias. Isso e a maldita fome. Jamais tinha sentido algo parecido antes, no entanto nada lhe parava no estômago. Aqueles que já haviam passado pelo que ela estava passando, ou próximo disso - porque as coisas nunca são exatamente iguais, a despeito do que pensam alguns pais autoritários ou alguns casados de longa data -, lhe disseram que isso era normal; “É assim mesmo”, diziam. Ela não queria acreditar, esperava que passasse, como um resfriado ou um amor jurado eterno.

Um relógio de rua mostrava a temperatura: vinte e dois graus, mas ela sentia como se estivesse muito mais frio; tremia. Esperou por um momento e lá estava: três da manhã! A fome persiste, ainda mais intensa, mas ela não tem mais coragem de tentar ingerir qualquer coisa. Mais um pouco e a alvorada! E enfim talvez o sono. Ao menos tinha sido assim nos dois dias anteriores em que se negou a dormir durante o dia, pois tinha medo que se o fizesse, se começasse com esses hábitos, sua vida realmente nunca mais seria a mesma. “talvez se eu não ceder, talvez enquanto tiver esperança”, pensava. Mas nesse ponto, já era tarde demais, e no fundo de seu coração ela sabia disso.

Uma loja de conveniência 24 horas, na esquina de sua antiga casa, longe de onde seria obrigada a morar. Devia ter andado quilômetros até parar ali, no entanto não se sentia cansada. Entrou por um pacote de cigarros. Não fumava; nem sequer queria fumar. Pediu o maço ao atendente, mas o fez sem educação. Provocava o homem, com suas palavras primeiro e depois com seu corpo. Devia estar enlouquecendo, mas se achou sexy, e até o próprio fato de poder estar ficando maluca deixava a tudo mais excitante. Procurava ao mesmo tempo por uma boa transa ou um bom soco da cara – um bom tapa que fosse, se aquele homem não tivesse coragem de lhe bater como merecia – era uma disputa entre sua boca pecaminosa e seu corpo buscando pelo pecado. No entanto ambos queriam a mesma coisa, a coisa que lhe fez entrar pelos cigarros: queria se sentir viva!

Puxou um cigarro do maço sem sequer ter pagado por ele, colocou na boca e a estendeu para que o atendente o acendesse. Não conseguiu nem a transa nem os socos, esperava ao menos esse fogo. Talvez estivesse mesmo morta, ou talvez fosse realmente demais esperar que o homem acendesse seu cigarro depois do que dissera ou de quase ter se despido e atirado sobre ele ali mesmo. Não sabia ao certo, mas não acreditava estar morta. Não podia acreditar nisso! Sentia frio e sentia fome.
E alguma coisa dentro dela sabia que apesar de não ter correspondido aos apelos de sua boca ou satisfeito os de seu corpo, essa última ele poderia resolver. Olhou novamente para o homem: um olhar esguio. Retirou o cigarro ainda apagado da boca e pensou até escutar a mente do sujeito dizendo: “lá vem ela de novo! O que será dessa vez? Acho que vou ter que dar um jeito nessa mulher mesmo!

Ela sorriu com desdém, mas algo em seu íntimo já havia sorrido antes. Se ele quis dizer “alguns bons socos” ou “uma boa transa” com aquele “dar um jeito” isso já não fazia diferença alguma: já era tarde demais.

Sentada ao lado do corpo inerte do plantonista já sem sangue algum no corpo ela sentiu algumas lágrimas lhe descerem o rosto, mas até para elas o tempo havia se esgotado; levavam embora seus últimos e insistentes traços de humanidade, que já não insistiam mais. Já não sentia mais fome. Tirou o isqueiro do bolso do homem morto e acendeu o cigarro. Sua boca ainda ligeiramente trêmula e vermelha sujou-lhe a ponta – lhe pareceu como batom. Com algum esforço deu a primeira tragada de sua vida. Sentiu a fumaça quente descer-lhe a garganta até os pulmões. Demorou um pouco, como se esperasse que preenchesse o enorme vazio de seu interior, e a soltou. Não havia surtido efeito. Era óbvio. Riu de sua própria ingenuidade. Nada, em tempo algum preencheria aquele vazio… “Mas ao menos não preciso me preocupar com a fumaça ou o cigarro”, pensou, “vampiros não morrem de males causados pelo tabagismo!”.

Longe dali, longe de tudo que conheceu, de sua vida e seu passado, ela dormiu um sono pesado quando o amanhecer chegou.

Alguns ensaios e considerações

Janeiro 7, 2008 by yohankoh

Quando o texto estiver mais completo o colocarei aqui em capítulos. Até lá espero expor a linha de raciocínio e que seja alvejado por opiniões.
Considerações - “Os Amores da Minha Vida”

writing - muitos dias…

Janeiro 3, 2008 by yohankoh

Amanhã esquecerei você!
Escreverei isso todos os dias até que a tenha esquecido.
E escreverei mesmo sabendo que isso me fará lembrar de você.
Todos os dias…

Amanhã esquecerei você!
Escreverei isso todos os dias até que só reste a poesia.
E escreverei mesmo sabendo que a poesia é por você.
Todos os dias…

Amanhã esquecerei você!
Escreverei até que haja suficientes folhas para preencher as paredes que você tocou
Escrevei até que haja mais juras do que as que nunca fizemos um ao outro.
Até que esqueça todos os lugares que nunca fomos.
Todos os beijos que nunca demos.
E escreverei mesmo sabendo que os muros que nos separam jamais cairão
Todos os dias…

Amanhã esquecerei você!
Escreverei isso todos os dias por sobre suas fotos
E escreverei mesmo sabendo que isso nunca apagará a imagem que tenho de você
Todos os dias…

Amanhã esquecerei você!
Esquecerei onde mora, suas roupas, seus discos e seu telefone.
E esquecerei ainda que tenha que esquecer a mim mesmo.
Esquecerei a cor de seus cabelos e as cores que pintava as unhas.
E esquecerei ainda que tenha de esquecer as cores todas e toda beleza.
Esquecerei o modo que gostaria que me olhasse e o formato de seus olhos.
Esquecerei sua personalidade e seu nome.
Ainda que me perca…

Amanhã esquecerei você!
Amanhã, pois hoje já é tarde demais…

NO TEMPO DE BORGES

Dezembro 19, 2007 by yohankoh

Ainda que em poucas palavras
Ainda que em dias tão breves
Sonhar esse sonho de casas
Sonhar como o conto dum cego
Ainda que infante no sono
Sonhar com pilastras sublimes
Sonhar com a doce coleta
Saber-se habitado no tempo
Da longa corrente incompleta.

Um conto de Natal

Novembro 28, 2007 by yohankoh
Mudando o estilo dos textos e puxando um pouco mais para o gênero
que procurarei seguir em minhas obras, abaixo encontra-se a
introdução que desenvolvi para um conto de natal.

Chegou em casa tarde. Entrou e fechou a porta, girando apenas uma vez a chave. Frequentemente se perguntava por que existiam pessoas que insistiam em dar a segunda volta. “A primeira não fecha de verdade, é só brincadeirinha!”. Demorou a acender as luzes só pra sentir um pouco mais aquela escuridão silenciosa. Atrás de si as lâmpadas da árvore de natal brilhavam intermitentes, amarelas, vermelhas, azuis e as novas: verdes; ele podia ver os reflexos de suas luzes na parede, transformando galhos em monstros malévolos feitos de sombra.

- Papai, vem, vamos montar a árvore!…

A princípio ele apenas respondia: “mas a árvore já está montada, querida”, somente para ouvir a voz da filha chamando novamente. Isso mesmo sabendo que a menina morrera junto com a mãe havia três anos. Dessa vez ele apenas acendeu a luz.

* * *
- Olá, você tem duas mensagens em sua caixa de mensagens? Deseja ouvir suas mensagens agora?

Ele apertou o botão da secretária eletrônica distraidamente enquanto abria a segunda gaveta do móvel abaixo do aparelho, contando de cima, e retirava de lá novamente a caixa com laço vermelho que um dia já abrigou seu último presente para a filha.

- Primeira nova mensagem: mensagem recebida hoje, seis horas atrás…

Sentou-se na cabeceira da mesa de jantar com lugar para uma dezena de pessoas e depositou a caixa no tampo de vidro, feliz por livrar-se de seu peso.

- Oi, Paulo, sou eu, a Dani, você está bem? Desculpa estar ligando, é que você não me ligou de volta aquele dia e eu fiquei esperando… estou com saudades, me liga quando puder.

Abriu o laço com carinho, como se ainda fosse tirar de lá o próprio vestidinho branco com corações com o qual presenteara a menina mais de uma semana antes de seu aniversário - não conseguia agüentar de ansiedade para ver quão linda ela iria ficar e seu sorriso ao exibir-se no espelho.

- Segunda nova mensagem: mensagem recebida uma hora atrás…

Sentiu outra vez o metal gelado encostar sua orelha, mas já não lhe causava sequer arrepios. Girou o tambor ao acaso e destravou o gatilho. Tudo feito com calma, numa lentidão mecânica. Uma única pergunta insistia em torcer-lhe a mente como se a envolvesse com algum tipo de arame e puxasse: “Por que eles as levaram ao invés de mim?”. Por vezes havia se perguntado o que faria se fosse obrigado a escolher entre a vida de sua mulher e filha ou a dele, por um maníaco ou coisa assim, mas nunca conseguiu responder a si mesmo com a certeza e a sinceridade que gostaria. E, agora que conseguia isso não fazia mais diferença; no mais, eles não lhe deram o poder da escolha.

- Oi, Paulinho, você ta ai? Sou eu de novo, a Dani. Vou estar na cidade amanhã, por que não jantamos juntos naquele restaurante de sempre? Já faz tanto tempo! Se lembra como a Katie adorava ir até lá e pedir o “sorvete gigaaaaante”? Aposto que se ela tivesse ai te convenceria a ir mesmo que arrastado! Bem, me liga quando puder, bjos!

Respirou fundo. Olhou pela janela procurando alguma estrela no céu. Seria uma pena ou uma dádiva morrer sob um céu estrelado? Colocou a arma novamente sobre a mesa. A resposta teria de esperar: na noite seguinte precisava jantar com a irmã.

- Papai, papai, vamos, vamos com a titia! Eu vou querer aquele sorvete gigaaaaante… - ouviu dizer a mesma voz que o saldara ao chegar.

…“Sua irmã jogara sujo.”.

Abriu outra vez a caixa. Pegou o laço de sobre a mesa de jantar, mas precisou lutar para mantê-lo seguro, pois ele insistia em escorrer-lhe dos dedos, como líquido pegajoso por entre os dedos, vermelho sangue. E de uma hora para outra tudo estava simplesmente envolto por aquele tom rubro. Forçou os olhos e balançou violentamente a cabeça - algumas vezes isso funcionava. Para sua sorte, essa foi uma delas, não seria hoje que ficaria louco. Já chega! Arrumaria tudo na manhã seguinte! Ninguém iria visitá-lo mesmo. E ainda que entrassem lá para uma xícara de açúcar de última hora, o que pensariam? Que ele era uma maníaco suicida?

Caminhou até a ponta das escadas que levavam aos quartos no piso superior. Descalçou os sapatos e calçou os chinelos: seus pés estavam o matando! Subiu e a caminho do quarto pegou uma garrafa de água: suava muito às noites e acordava frequentemente com a boca seca. Foi direto pra o quarto no fundo do corredor, o banho também ficaria para a manhã seguinte.

Deitou-se e ajustou o despertador para as oito horas, desligou o abajur sobre o criado-mudo ao lado da cama e apoiou a cabeça no travesseiro.

Mal tinha cochilado pela primeira vez quando um baque seco e ensurdecedor o acordou. Estava acostumado com pesadelos o suficiente para saber que desta vez não se tratava de um. Acendeu novamente o abajur e ficou olhando para os lados repetidas vezes até encontrar o que procurava. Anotou numa folha de postit: “uma bala de revolver calibre 38, não esquecer”. Colou-a onde ficasse visível e voltou a apagar o abajur. Repousou a cabeça novamente e em pouco tempo adormeceu.

Noosfera

Novembro 27, 2007 by yohankoh

[...] Visite a Noosfera [...] 

Terça-feira

Novembro 20, 2007 by yohankoh

É preciso que se encontre um meio de chegar antes, passar na frente. Isso, mesmo que tal meio fira a moral ou seja dela completamente desprovido. Ah! E que aqueles que se dizem cheios dessa coisa que é a moral fiquem atrás e me olhem com seus olhos moralistas pelas costas.

No mais, “a moral é a fraqueza do cérebro”, como afirmou Rimbaud.

E não é preciso usar o cérebro para pensar a respeito. Só é preciso que se consiga um meio de chegar antes. Passar na frente. Eis tudo!

O som da cidade me inebria, e o cheiro da borracha queimada que entope minhas narinas.

Toda manhã.