100 Melhores Canções do Hard Rock

Publicado em Noosfera às Julho 2, 2009 por yohankoh

O canal VH1 publicou uma pesquisa que aponta as “100 Melhores Canções do Hard Rock”

01. GUNS N’ ROSES – “Welcome To The Jungle”
02. AC/DC – “Back In Black”
03. LED ZEPPELIN – “Whole Lotta Love”
04. BLACK SABBATH – “Paranoid”
05. METALLICA – “Enter Sandman”
06. THE WHO – “Won’t Get Fooled Again”
07. NIRVANA – “Smells Like Teen Spirit”
08. AEROSMITH – “Walk This Way”
09. VAN HALEN – “Running With The Devil”
10. MOTÖRHEAD – “Ace Of Spades”
11. DEEP PURPLE – “Smoke On The Water”
12. JUDAS PRIEST – “Breaking The Law”
13. DEF LEPPARD – “Photograph”
14. IRON MAIDEN – “Run To The Hills”
15. MÖTLEY CRÜE – “Dr. Feelgood”
16. KISS – “Rock And Roll All Nite”
17. TWISTED SISTER – “I Wanna Rock”
18. SCORPIONS – “Rock You Like A Hurricane”
19. RUSH – “Tom Sawyer”
20. BON JOVI – “You Give Love A Bad Name”
21. LED ZEPPELIN – “Kashmir”
22. THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE – “Hey Joe”
23. OZZY OSBOURNE – “Crazy Train”
24. IRON BUTTERFLY – “In-A-Gadda-Da-Vida
25. THE RAMONES – “Blitzkreig Bop”
26. LYNYRD SKYNYRD – “Freebird”
27. WHITESNAKE – “Still Of The Night”
28. FOO FIGHTERS – “Everlong”
29. JOAN JETT – “Bad Reputation”
30. PEARL JAM – “Evenflow”
31. AC/DC – “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”
32. TED NUGENT – “Cat Scratch Fever”
33. GREEN DAY – “Basket Case”
34. HEART – “Barracuda”
35. ALICE COOPER – “School’s Out”
36. VAN HALEN – “Hot For Teacher”
37. THE WHO – “My Generation”
38. QUEEN – “Stone Cold Crazy”
39. BOSTON – “More Than A Feeling”
40. POISON – “Talk Dirty To Me”
41. QUIET RIOT – “Cum On Feel The Noise”
42. THE CLASH – “Should I Stay Or Should I Go”
43. DIO – “Holy Diver”
44. CREAM – “Sunshine Of Your Love”
45. FOGHAT – “Slow Ride”
46. ANTHRAX – “Madhouse”
47. KID ROCK – “Bawitdaba”
48. KORN – “Freak On A Leash”
49. IGGY POP AND THE STOOGES – “Search And Destroy”
50. RED HOT CHILI PEPPERS – “Give It Away”
51. MEGADETH – “Peace Sells”
52. THE RUNAWAYS – “Cherry Bomb”
53. STEPPENWOLF – “Born To Be Wild”
54. FAITH NO MORE – “Epic”
55. BLUE ÖYSTER CULT – “Don’t Fear The Reaper”
56. WARRANT – “Cherry Pie”
57. THE KINKS – “You Really Got Me”
58. STONE TEMPLE PILOTS – “Interstate Love Song”
59. BILLY SQUIER – “The Stroke”
60. SKID ROW – “18 And Life”
61. RATT – “Round And Round”
62. DOKKEN – “Breaking The Chains”
63. SURVIVOR – “Eye Of The Tiger”
64. ROLLINS BAND – “Liar”
65. MC5 – “Kick Out The Jams”
66. EUROPE – “The Final Countdown”
67. ZZ TOP – “Tush”
68. WHITE ZOMBIE – “More Human Than Human”
69. LIVING COLOUR – “Cult Of Personality”
70. FOREIGNER – “Hot Blooded”
71. JANE”S ADDICTION – “Mountain Song”
72. PAT BENETAR – “Heartbreaker”
73. THIN LIZZY – “Jailbreak”
74. THE CULT – “Love Removal Machine”
75. WHITE STRIPES – “Seven Nation Army”
76. LITA FORD – “Kiss Me Deadly”
77. SOUNDGARDEN – “Black Hole Sun”
78. BAD COMPANY – “Feel Like Making Love”
79. BILLY IDOL – “Rebel Yell”
80. JOURNEY – “Any Way You Want It”
81. BLACK SABBATH – “Heaven And Hell”
82. RAINBOW – “Since You”ve Been Gone”
83. EVANESCENCE – “Bring Me To Life”
84. W.A.S.P. – “I Wanna Be Somebody”
85. VELVET REVOLVER – “Slither”
86. MARILYN MANSON – “The Beautiful People”
87. WINGER – “Seventeen”
88. ALICE IN CHAINS – “Would?”
89. ANDREW W.K. – “Party Hard”
90. JETHRO TULL – “Aqualung”
91. SMASHING PUMPKINS – “Bullet With Butterfly Wings”
92. NIGHT RANGER – “Don”t Tell Me You Love Me”
93. AUTOGRAPH – “Turn Up The Radio”
94. THE DARKNESS – “I Believe In A Thing Called Love”
95. CREED – “Higher”
96. KANSAS – “Carry On Wayward Son”
97. EDGAR WINTER”S GROUP – “Frankenstein”
98. BUCKCHERRY – “Lit Up”
99. GRAND FUNK RAILROAD – “We”re An American Band”
100. SAMMY HAGAR – “I Can”t Drive 55”

Cem Mortes (Parte II)

Publicado em 1 com as tags , , , , , , , , às Junho 20, 2009 por yohankoh

Um calafrio. Acreditou que seu coração iria disparar, acelerar subitamente. Até seria compreensível se o fizesse. Entretanto, não o fez, o que era mais difícil de compreender. Por outro lado, isso queria dizer que ele estava bem, não? Que nada daquilo tinha de fato lhe afetado… sequer ocorrido, não é? E o fato de ele não conseguir parar de olhar para o lado ou para trás mesmo sem o movimento das folhas ou do vento para lhe chamarem a atenção, também era nada. Nada demais. Só – vamos dizer – estava olhando por precaução, certo? (tudo bem para você?)
A coisa era mais ou menos assim: John voltara outra vez a caminhar, mas deixara de olhar as fotos; já não ligava – muito – para isso ou para o cheiro das flores, ou até para o modo que aquelas estátuas se moviam, moviam seus olhos e o observavam. Bem, para ele pareciam estar observando. Dava alguns passos – dois ou três; com coragem quatro – seus pés esmagando alguns pedregulhos e o som às vezes lhe provocando, lhe enchendo a mente. Então acelerava, quase chegando a correr; subitamente parava e olhava para trás ou para o lado, só para ver que havia ninguém lá. E havia sempre ninguém.
Olhou novamente uma fotografia, pregada numa pedra, numa estrutura de pedra, e a olhou casualmente.
Meu Deus! Era impossível que não houvesse percebido antes. E também era impossível que sua mente houvesse lhe pregado uma peça tão grande durante tanto tempo. Como também era impossível que tudo aquilo fosse real. No entanto, estava vendo com seus próprios olhos…
Não havia rostos naquelas fotos. Por isso não encontrara quem estava procurando. Ele estava procurando alguém? Não! Ao menos, achava que não. Não se lembrava. O que estava fazendo ali?
Correu. Sua cabeça ia de um lado para o outro sem parar, mas seu pescoço não doía, seu cérebro estranhamente não acusava dor. Estava certo. Sombriamente certo. Não havia rastros. Não havia Lua nos céus, apenas nuvens carregadas. Algumas poucas luzes lusco-fuscas naquele lugar escuro, naquela noite escura. E não havia por quê. Aparentemente não havia por que, como aparentemente não havia dor. Embora ele pudesse afirmar com certeza que não havia. Que estava certo. Sombriamente certo.
Nossa! – de repente muitas coisas lhe vieram à mente e ficaram claras, ou talvez horrendamente mais escuras, sombrias. E vieram em formas de perguntas. O que aconteceu? Que blusa é essa? Uma jaqueta? Ele não se lembrava de ter comprado uma. De fato, não se lembrava sequer quando foi que a vestiu e por quê. A última coisa que se lembrava era de estar parado em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Começou a entrar em pânico. Se é que já não havia entrado em pânico antes. Será? Não se lembrava ao certo. Tirou rapidamente, desajeitado, a jaqueta – como se sentisse nojo dela. Na verdade sentia, só não se lembrava por quê. Jogou-a no chão em algum lugar naquele lugar escuro, no chão de pedregulhos, e na mesma hora o vento que antes apenas brincava com as folhas, brincava com ele, passou a congelá-lo, e ele levou os braços para junto ao corpo, apertando, numa espécie de abraço em si próprio.
Talvez achasse estranho não lembrar quando os removera dali; mas isso só se se recordasse de já tê-los levado ao corpo antes.
Estava perdido, talvez como estivera toda a noite. Talvez não.
Seu corpo tremia, e não era de frio. Algumas lágrimas que lhe escapavam dos olhos confirmavam isso. Estava realmente assustado – para ele, abruptamente assustado, e sem motivo –, estava com medo. Mas nunca teve medo de ficar sozinho, mesmo antes de dormir quando era pequeno. Sua mãe sempre lhe dizia: “que menino corajoso!”. Tampouco tinha medo do escuro. O que ele temia era o fato de talvez não estar realmente sozinho.

* * *
Levou a mão ao nariz. Iria assuá-lo, mas não o fez.
Um cheiro conhecido, mas, não obstante, diferente do cheiro das flores o fizera hesitar. Um cheiro mais nauseante, ligeiramente doce, mas não exatamente.
Olhou em volta procurando alguma luz, um lugar iluminado para que pudesse transformar dúvidas em certezas. Não! Para que pudesse desmenti-las. O problema é que ele não precisava de luz para ter certeza, e não havia como ter dúvida – e ele sabia disso.
Levou ambas as mãos à frente do rosto, o suficiente para enxergá-las. Mas não abriu os olhos. Não se lembrava do momento em que os fechara…
Não importava.
Sentiu sua camisa empapada com algum líquido viscoso que a prendia ao corpo; porém, não estagnava o frio. Gostaria de ter algo com o que se cobrir. Mesmo que fosse uma jaqueta, e mesmo que não gostasse de jaquetas…
Não importava.
Abriu novamente os olhos. Foi mais difícil do que era normalmente, mas mais fácil do que julgou que seria.
Sua camisa branca havia ficado vermelha. Mas como? Talvez realmente ficasse espantado se lembrasse o motivo, mas de algum modo sabia que somente havia se lembrado que a camisa um dia possuiu a cor da neve porque ainda restavam nela alguns pedaços que o vermelho viscoso não manchara – ainda.

* * *
Algum tempo passou e ele reabriu os olhos. Não foi muito tempo. Na verdade, ele não saberia dizer se foi ou não. Nem sequer lembrava de tê-los fechado novamente, nem de tê-los fechado alguma vez antes. Viu o céu. Não havia estrelas, só nuvens carregadas e escuras. Procurou levantar, mas não conseguiu. O corpo não se movia, não respeitava suas ordens. E, o que era pior… Exato!… Ele não se lembrava, não conseguia se lembrar, quando ou como havia parado ali, deitado naquele chão de pedregulhos daquele lugar escuro, naquela noite escura.
– Meu Deus! – pensou. Talvez tenha dito, mas não se lembrava se sua boca se movera no outrora corriqueiro abrir e fechar que fazia sem pensar.
Vou morrer!
– Ninguém morre aqui, John – ele ouviu uma voz dizendo; dessa vez tinha certeza, mesmo não se lembrando da vez que não tivera, mas não conseguia compreender, apesar de se tratar de uma frase simples, o que ela queria dizer.

Cem Mortes (parte I)

Publicado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , , , , , às Junho 15, 2009 por yohankoh

Ele caminhava assustado entre as ruas seis e sete. Olhava cada uma daquelas pessoas nas fotos pelo caminho. Não que as conhecesse. Não que se lembrasse. Na verdade, não se lembrava ao certo do motivo que o levara até ali, até aquele lugar escuro, sombrio, em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Já era noite e o frio aumentara, fazendo com que ele levasse as mãos aos ombros; os braços à frente do corpo, numa espécie de abraço em si mesmo. Havia algo lhe cobrindo o corpo por cima da camiseta, uma espécie de jaqueta, mas ele não se lembrava de tê-la colocado, ou quando. Possuía só uma vaga lembrança. E era bom estar protegido, digamos que aquilo fora providencial, então ele não ligou para o fato. Não naquele momento.
O cheiro das flores também era forte. Não que ele não gostasse do cheiro de flores, mas algo naquele lugar estava começando a fazer com que ele passasse a não gostar.
– Sente o cheiro as flores, John? Ele não lhe agrada mais? – o homem pareceu ouvir.
Poderia até achar que se tratava de sua própria consciência. Mas, a não ser que tenha voltado muito no tempo, ou acreditasse nisso, estaria certamente se enganando, tomando o caminho mais rápido para a resolução mesmo que não fosse o certo e ele soubesse disso – não teria sido a primeira vez. Em suma, teria de acreditar que a voz da sua consciência voltara a falar como um menino de dez anos de idade.
Mas o problema não era esse…
– Que… Quem está ai? – ele indagou em voz alta, gaguejando e girando nos calcanhares.
“Que idiota!”. Agora sim era aquela voz conhecida, a voz da sua consciência, reprimindo-o como de costume; e como quase sempre, com razão.
O problema era que havia ninguém, senão ele, ali.
O problema era que, na verdade, ele parecia conhecer a voz que lhe falou.
O problema era que parecia ser a voz de seu filho.
O problema era que seu filho morrera havia sete anos. Ou seriam sete meses? Sete dias? O tempo é engraçado, não é mesmo?
O problema era que não conseguia se lembrar ao certo. Talvez não quisesse.
O problema é que há coisas que a gente nunca esquece.

* * *
Voltou a caminhar. Na verdade havia voltado a caminhar. Dessa vez, adentrara ma das ruas, mas quando ou qual rua ele não saberia afirmar ao certo. Fez sem olhar. Se tivesse olhado entraria na rua sete. Se tivesse se lembrado.
Algumas folhas passeavam com o vento, enegrecidas pela noite escura; escura como ficavam suas vestes naquela noite; naquela noite escura, naquele lugar escuro. Vez ou outra lhe chamavam a atenção e ele desviava o olhar; quando retornava só faltava xingar a si próprio de estúpido (no mínimo), já que não conseguia responder sequer uma simples pergunta que lhe acometia a cada vez: “qual foi a última vez que olhei mesmo?”. Contudo, foi em uma dessas vezes, dessas que olhava para o lado – ou para trás, ou para baixo – na qual sua visão periférica encontrou algo mais. Algo imprevisto, uma sombra talvez, cuja sua primeira reação foi negar piamente.
Seria essa sombra a de seu filho? Do mesmo filho que acreditava ter ouvido a voz? Bem, poderia ser, mas somente se seu filho tivesse crescido uns sessenta centímetros. Só se seu filho tivesse adquirido a estatura de um jovem de aproximadamente vinte anos. E, só se seu filho estivesse vivo para poder fazer isso; se não estivesse morto.
Um calafrio. Acreditou que seu coração iria disparar, acelerar subitamente. Até seria compreensível se o fizesse. Entretanto, não o fez, o que era mais difícil de compreender. Por outro lado, isso queria dizer que ele estava bem, não? Que nada daquilo tinha de fato lhe afetado… sequer ocorrido, não é? E o fato de ele não conseguir parar de olhar para o lado ou para trás mesmo sem o movimento das folhas ou do vento para lhe chamarem a atenção, também era nada. Nada demais. Só – vamos dizer – estava olhando por precaução, certo? (tudo bem para você?)
A coisa era mais ou menos assim: John voltara outra vez a caminhar, mas deixara de olhar as fotos; já não ligava – muito – para isso ou para o cheiro das flores, ou até para o modo que aquelas estátuas se moviam, moviam seus olhos e o observavam. Bem, para ele pareciam estar observando. Dava alguns passos – dois ou três; com coragem quatro – seus pés esmagando alguns pedregulhos e o som às vezes lhe provocando, lhe enchendo a mente. Então acelerava, quase chegando a correr; subitamente parava e olhava para trás ou para o lado, só para ver que havia ninguém lá. E havia sempre ninguém.
Olhou novamente uma fotografia, pregada numa pedra, numa estrutura de pedra, e a olhou casualmente.
Meu Deus! Era impossível que não houvesse percebido antes. E também era impossível que sua mente houvesse lhe pregado uma peça tão grande durante tanto tempo. Como também era impossível que tudo aquilo fosse real. No entanto, estava vendo com seus próprios olhos…
Não havia rostos naquelas fotos. Por isso não encontrara quem estava procurando. Ele estava procurando alguém? Não! Ao menos, achava que não. Não se lembrava. O que estava fazendo ali?
Correu. Sua cabeça ia de um lado para o outro sem parar, mas seu pescoço não doía, seu cérebro estranhamente não acusava dor. Estava certo. Sombriamente certo. Não havia rastros. Não havia Lua nos céus, apenas nuvens carregadas. Algumas poucas luzes lusco-fuscas naquele lugar escuro, naquela noite escura. E não havia por quê. Aparentemente não havia por que, como aparentemente não havia dor. Embora ele pudesse afirmar com certeza que não havia. Que estava certo. Sombriamente certo.
Nossa! – de repente muitas coisas lhe vieram à mente e ficaram claras, ou talvez horrendamente mais escuras, sombrias. E vieram em formas de perguntas. O que aconteceu? Que blusa é essa? Uma jaqueta? Ele não se lembrava de ter comprado uma. De fato, não se lembrava sequer quando foi que a vestiu e por quê. A última coisa que se lembrava era de estar parado em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Começou a entrar em pânico. Se é que já não havia entrado em pânico antes. Será? Não se lembrava ao certo. Tirou rapidamente, desajeitado, a jaqueta – como se sentisse nojo dela. Na verdade sentia, só não se lembrava por quê. Jogou-a no chão em algum lugar naquele lugar escuro, no chão de pedregulhos, e na mesma hora o vento que antes apenas brincava com as folhas, brincava com ele, passou a congelá-lo, e ele levou os braços para junto ao corpo, apertando, numa espécie de abraço em si próprio.
Talvez achasse estranho não lembrar quando os removera dali; mas isso só se se recordasse de já tê-los levado ao corpo antes.
Estava perdido, talvez como estivera toda a noite. Talvez não.
Seu corpo tremia, e não era de frio. Algumas lágrimas que lhe escapavam dos olhos confirmavam isso. Estava realmente assustado – para ele, abruptamente assustado, e sem motivo –, estava com medo. Mas nunca teve medo de ficar sozinho, mesmo antes de dormir quando era pequeno. Sua mãe sempre lhe dizia: “que menino corajoso!”. Tampouco tinha medo do escuro. O que ele temia era o fato de talvez não estar realmente sozinho.
continua…

Wuthering Heights

Publicado em Noosfera às Maio 22, 2009 por yohankoh

And I pray one prayer I repeat it till my tongue stiffens Catherine Earnshaw, may you not rest as long as I am living; you said I killed you haunt me, then! The murdered DO haunt their murderers, I believe. I know that ghosts HAVE wandered on earth. Be with me always take any form drive me mad! only DO not leave me in this abyss, where I cannot find you! Oh, God! it is unutterable! I CANNOT live without my life! I CANNOT live without my soul!

The times they are a-changin’ – Daddys’ dad

Publicado em Noosfera com as tags , , , às Março 25, 2009 por yohankoh

Come gather ’round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You’ll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin’
Then you better start swimmin’
Or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won’t come again
And don’t speak too soon
For the wheel’s still in spin
And there’s no tellin’ who
That it’s namin’.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin’.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don’t stand in the doorway
Don’t block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There’s a battle outside
And it is ragin’.
It’ll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin’.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don’t criticize
What you can’t understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin’.
Please get out of the new one
If you can’t lend your hand
For the times they are a-changin’.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin’.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin’.

Um ensaio sobre você

Publicado em Writing... às Março 10, 2009 por yohankoh

Não me é estranho o fato de você não se importar.
Como tudo no mundo, isso funciona como uma balança, e eu me importo demais.
Talvez seja o modo que você me diz olá.

Depois disso toda a coragem parece estupidez, toda tentativa insensatez.
Digo sempre as mesmas coisas, tantas e tantas vezes que acabo não conseguindo lembrar ao certo o que disse ou quando.
Escrevo e apago as mensagens uma e outra vezes como se precisasse acertar.
Isso sim! Há essa necessidade de dizer a coisa certa o tempo todo.

E você não diz nada.
Escreve algumas palavras com um sentido vago, descomrpomissadas.
E então vai embora.
Talvez seja o modo que você nunca se despede.

Você entra e sai como uma gota de veneno condenada a vagar pelo meu sangue,
visitando o coração quando ele parece curado

Me vejo procurando um motivo como procuro as palavras certas,
Novamente sou eu quem diz olá,
Tudo a partir daí parece não se encaixar
Eu sempre procuro você.

Talvez seja o modo que você me diz olá.

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Hoje é outro dia.

Rosas de Inverno

Publicado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , às Maio 20, 2008 por yohankoh

Ele se sentou à cabeceira, não que fizesse questão, pelo contrário, sequer queria uma mesa com cabeceira, mas assim como a cortina florida (com petúnias) e o papel de parede de seu quarto, fora idéia de sua mulher – para manter um nível inconsciente de hierarquia, é importante para as crianças. Quem mandou casar com uma psicóloga? Serviu-se de duas fatias de pão integral sete grãos, e uma generosa porção de geléia de morango, para equilibrar. Seu filho mais velho logo desceria também para tomar o café-da-manhã – a menor tinha apenas cinco anos e ainda estudava de tarde.
Alguns poucos minutos depois, enquanto terminava seu sanduíche e começava a se servir do café fraco demais de sua mulher, escutou os passos apressados na escada de madeira que indicavam que Claudinho estava descendo.
- Bom dia, meu velho! – disse o menino sorridente.
- Está alegre hoje, filho…
O menino não respondeu nem continuou a conversa, sentou-se também sem prestar mais atenção no pai e serviu-se de cereais de milho, leite e…
- Não tem fruta, pai?
- O que é Claudinho? – respondeu abaixando sua caneca que estava a meio-caminho da boca.
- Morangos, banana… “Fruta”!
Ele pensou em retrucar dizendo que sabia o que era uma fruta, só não havia escutado direito, ou melhor, até tinha escutado, mas questionou como às vezes fazemos: para dar algum tempo de pensar na resposta, no entanto não se sentiu motivado pra tanto.
- Acho que sua mãe trouxe maçã e pêra, devem estar na geladeira…
- Para evitar aqueles mosquitinhos chatos, né? – Cláudio imitou a mãe.
- Pois é, creio que sim, mas vão ficar pretas, então é bom comê-las rápido – disse pensando que não teria jeito de qualquer forma, “ninguém é tão rápido assim”.
- Pêra e maçã não têm nada a ver com Sucrilhos – escutou o filho reclamar, mas já tinha levantado novamente a caneca de café e dessa vez nada o iria impedir de beber aquilo enquanto ainda estivesse quente (ou o mais próximo disso que poderia estar).
- Concordo – disse enquanto sorvia o líquido já gelado.
Foi então a vez de Cláudio pensar em reclamar, mas parou no meio da fala. Depois diria direto pra mãe.
Para dizer a verdade, as manhãs eram quase sempre assim, e as tardes e noites seguiam na mesma toada. Bianca, sua mulher, saía de manhã para o escritório próximo aos Jardins – antes que todos resolvam querer sair e eu resolva querer voltar, dizia ela, e sempre que lembrava disso, Ricardo Prado (sim, esse era seu nome, mas era mais conhecido como Richard ou, Ri, ou “meu velho”) pensava que era o mais próximo que sua mulher poderia chegar de uma boa piada já havia algum tempo –, dava um beijo em seu rosto ainda na cama e deixava o café pronto. Claudinho descia e reclamava de alguma coisa sem perder o bom-humor usual, com seu uniforme do colégio e o sorriso ingênuo no rosto e logo depois do menino sair ele subia para acordar Bruninha, sua filha menor, antes de ele próprio sair para o trabalho. Era arquiteto civil e trabalhava numa empresa de médio porte próxima ao Brooklin, não muito longe da sua casa, mas infelizmente suficiente para precisar usar o carro: um Fiesta Sedan, prata, já com cinco anos a mais do que ele gostaria que tivesse.
Nada disso o incomodava, não mais, a não ser aquilo; aquilo de seus filhos – pois não era só Claudinho, Bruna também – de parecer nem sequer perderem tempo reclamando com ele de alguma coisa, preferiam “falar direto com a mãe”. Toda vez era como se uma pequena agulha cuidadosamente colocada num lugar que doa, próximo ao peito, fosse um pouco empurrada mais para dentro, só pra lembrá-lo que está ali e que, convenhamos, não vai sair dali.
- Velho?!
Ricardo não respondeu.
- O que foi, meu velho? – repetiu Cláudio enquanto terminava seu cereal. – Pai?!
Foi só então que ele escutou e voltou de seus devaneios.
- O que foi, filho? Precisa de alguma coisa? Não vai se atrasar, não é?
- Não, meu velho – respondeu o menino, tomando um gole de suco de laranja de caixinha (pelo menos isso Ricardo conseguira convencer a mulher que seria melhor do que ter de espremer frutas todas as manhãs para que tivessem o suco 100% natural, pensava na coisa com um orgulho débil).
- Bom! Isso é bom. Eu também não posso vacilar, já já tenho que subir e acordar sua irmã.
- A Bruninha já ta de pé eu acho, vi o som da TV ligada no quarto dela quando passei – retorquiu o menino sorridente.
- Hum… – Ricardo tinha um ar ponderado e sem ânimo – de qualquer modo, vou lá conferir assim que você for pra escolinha.
- Escolhinha?! – perturbou-se o garoto. – Já estou na sexta série! Ano que vem vou pra sétima.
Assim esperamos, pensou Ricardo, mas não disse.
- Ah, é mesmo, desculpe… – falou com a voz baixa – já está um garotão, hein?
Cláudio tentou detectar qualquer resquício de sarcasmo ou ironia na fala do pai, mas não pôde. Não havia. E então deu um sorriso ainda maior e se animou ainda mais.
- Você sabe o que vou ser quando crescer ainda mais?
- Um velho como o seu pai, se Deus quiser!
- Não! – aborreceu-se o menino – Não to falando disso!
- Eu sei – ele explicou – só estou brincando.
Cláudio não riu. Mas logo se animou novamente e continuou contando enquanto terminava o suco e já arrumava as coisas pra deixar a mesa.
- Vou ser músico e artista de cinema, como a Norah Jones ou o Bob Dylan!
Ricardo ficou quieto. Ao ouvir seu filho dizendo aquelas palavras alguma coisa doeu dentro dele e não tinha nada a ver com aquela agulha ou qualquer outra dessa vez, era alguma outra coisa.
Ao ver que o pai apenas o olhava, Claudinho continuou sem perder o ânimo, gostava quando lhe prestavam atenção.
- Estou treinando com o violão todos os dias – é verdade, estava mesmo, e todos na casa esperavam que ele aprendesse rápido e achavam uma boa idéia “da mãe” ter comprado um violão ao invés de uma guitarra – e já toco Stairway to Heaven quase até o final, tirando aquele solinho besta do meio, e já falei com o Paulinho, aquele amigo meu lá do time que também toca, porque o pai dele é produtor de vídeo e o Paulinho disse que pode me dar uma força com a minha carreira. Aí faço alguns clipes e tals, sei que o começo é difícil, li em várias revistas o pessoal das bandas famosas falando… Sabia que o Metallica antes da fama teve que pedir uma torradeira ao pessoal do Anthrax, porque tavam duros como pedra?… Mas depois, se começar a dar certo é só seguir e estar sempre na mídia, fazer falarem de você, sabe? E como já vou ter feito alguns videoclipes, depois a minha carreira de ator vai ficar mais fácil também, não acha?
A coisa toda parecia estar muito certa na cabeça do menino, Ricardo pensou, no mínimo já tinha feito esse discurso para os amigos – e a mãe –, várias e várias vezes, sempre acrescentando um ponto importantíssimo de como conseguiria alcançar tudo isso de maneira certa, e apesar de difícil no começo, simples.
- Eu também já tive sonhos, filho – ele diz, quase que deixando as palavras escaparem sem nem sequer um sorriso amarelo para acompanhar.
Claudio levanta e coloca os pratos e copos na pia como o pai o havia ensinado a fazer. Escova os dentes rapidamente no lavabo anexo convenientemente à cozinha e despede-se com um Tchau já perto da porta que fecha atrás de si depois de sair para pegar a perua. Vai pra escola sem entender muito bem o que o pai quis dizer.
Ricardo termina seu café-da-manhã sem pensar em mais nada ou trocar qualquer palavra com ninguém, sobe e chama a filha que reclamou do tempo e que não teria “parquinho” na escola naquele dia. Desce novamente e lava a louça deixada por ele, o filho e a mulher antes de sair. Prepara rapidamente um lanche e um copo de café-com-leite para Bruninha e deixa sobre a mesa à espera da menina.
Antes de sair desce mais um lance de escadas até o que seria o porão, mas que na verdade era só um espaço da casa que destinaram para jogar as coisas que não usavam com freqüência ou que haviam se apegado demais para simplesmente jogarem fora. Se aproxima de um armário antigo de madeira escura e já bastante comida por cupins que nunca foram achados – talvez tenha sido o tempo mesmo – e abre a primeira gaveta fechada a chave. Um cheiro de velho chega às suas narinas, mas ele não parece se importar. Lá dentro uma pilha de folhas escritas à máquina e ligeiramente amareladas descansa um longo sono. Na primeira delas, logo em cima, podia ler um título: “Rosas de Inverno”, e logo abaixo, em itálico “um romance de Ricardo A. Prado”. Passou-se alguns momentos em que ambos, folhas e Ricardo, pareceram um só, imóveis e olhando um ao outro até que ele fechou a gaveta com força e trancou novamente, dando duas voltas na chave.
Ainda podia ouvir o estrondo seco da gaveta se fechando enquanto subia a escada outra vez e caminhava alguns passos até a mesa onde repousava sua valise preta de fecho dourado, bem parecida com a que seu próprio pai usava quando era vivo. Pegou-a e também o canudo com os projetos que levara para terminar em casa, no dia anterior. Deu uma última olhada para a casa silenciosa, e o lanche ainda à espera da filha sobre a mesa, ajeitou um pouco os cabelos no pequeno espelho próximo à porta e saiu.

小親愛的 (Little Darling) – Parte 1/2

Publicado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , , , às Fevereiro 16, 2008 por yohankoh

Ele chamou o garçom até sua mesa com um aceno. O sujeito sorridente chegou rápido.

            – O que vai ser hoje, senhor – disse ele.

            – Me faz um favor?

            – Claro senhor. Estamos aqui para isso! – parafraseou.

            – O drink da casa para aquela moça ali. – apontou.

            – Um V8 para aquela chinesinha ali? – confirmou prestativo.

            – Perfeito! Com fogo e tudo.

            – Claro, senhor, mais alguma coisa?

            – Ficaria ruim se eu pedisse um também?

            – Eu acho que não, senhor? Um V8 para o senhor também?

            – Sim, por favor.

            – Claro, meu capitão, está saindo! – sorriu com certo desdém que ele notou, mas preferiu não tecer comentário. Precisava ainda do tal favor. – Ela é a mais bonita da noite, sem dúvida. Se eu fosse o senhor chegaria beijando, sabe? Hoje em dia mulher não quer muito papo não! Acha que cê é lerdo ou até viado se falar demais…

            – Certo, vou pensar nisso! Enquanto isso me traz os drinks.

            – Podexá! Mal não vai fazer, né? – brincou com uma piscadela.

            – Pois é. – ele piscou de volta já se sentindo esgotado.

 

            Ele olhou ao redor, não conhecia ninguém, mas ao mesmo tempo pareciam os mesmos rostos de sempre. O casal à sua frente já não se amava mais e ele soube disso com poucos minutos, é impossível que ambos não percebessem se ficassem mais que esse tempo próximos um do outro. Ou então é a tal da conveniência. Ele se perguntava: “a quem isso haveria de ser conveniente?”. Ao lado dois amigos conversavam. O mesmo papo que ele mesmo já pensara em gravar para os dias que não quisesse nem gastar saliva. Apostava que ninguém sequer perceberia.

            Mais uma música iria se iniciar: Walk of Life. Ele reconheceu logo pelos primeiros acordes. Outra que, sem dúvida, poderia gravar, mas nesse caso alguém já havia feito isso antes dele; mais especificamente o Dire Straits. Do outro lado estava o sujeito sorridente com as duas bebidas sobre a bandeja flamejante. “Ao menos chama a atenção, sem dúvida!”, pensou e também sorriu. Até que foi rápido mesmo. Iria se lembrar do fato na hora de deixar a gorjeta, mas esperava que esquecesse. Não esqueceu.

            O garçom entregou a bebida, o V8 – receita secreta da casa, guardada a sete chaves… ou algumas notas de cinqüenta. Havia chegado a hora. Podia até ler nos lábios do homem: “esse é por conta daquele senhor ali”. Achou engraçado. Não o fato da frase padrão, mas o de ter sido chamado de senhor. Quando o sujeito se referiu a ele anteriormente não havia se importado porque imaginara ser de tom respeitoso – por sinal deslocado completamente do ambiente informal do bar onde estava – mas ouvindo agora (ou quase) não conseguiu deixar de achar estranho, afinal não tinha chegado sequer à casa dos trinta. Rapaz, pensou, teria sido uma opção melhor. Mas isso tudo não importava, precisava aproveitar o momento e dar seu melhor sorriso, levantar o copo como num brinde à distância, aquela coisa toda.

            Ela aceitara. Também, quem recusaria? O drink além de bonito era muito gostoso. Poderia ser um pouco mais forte, sem dúvida, mas quem se atreveria a mudar um miligrama da receita ultra-secreta? Esse pensamento o fez sorrir com mais facilidade. Temeu que houvesse sido demais, mas não foi. No mínimo ela pensaria: “que palhaço!”.

            Por outro lado, ao menos assim saberia o que ela pensara. Estava com as amigas umas duas mesas para o lado, é sempre uma situação complicada.

            Bem, o primeiro passo havia sido dado, agora era só continuar andando: keep walking. Esperou pelos primeiros goles e pelos últimos e caminhou até lá.

            – Oi, se apresentou. Você sabe por que colocam fogo nesse drink?

            – Não!

            – Pois é, e aposto que eles também não vão querer falar… – fez uma cara de ultraje. – Mas é gostoso mesmo assim, não é?

            Ela riu. Ponto! As amigas acompanharam. Ponto! Mas não todas… Bem, não importava, a tal sem-humor era feia e ele acrescentou mentalmente (provavelmente mal-amada).

            Esperou por um convite para sentar. Não houve nenhum.

            – Eu tenho um palpite… – emendou antes que fosse tarde demais. Dessa fez teriam de convidá-lo a sentar se quisessem matar a curiosidade. Saber atiçar a curiosidade de uma mulher era um dom que todo o homem deveria aprender a cultivar.

            – Ah é? – a menina perguntou. A tal feia. Mal amada e curiosa.

            Ele se sentou. Apenas com um movimento de corpo para confirmar se podia realmente. Já não tinha dúvidas, era só questão de educação. Abaixou-se um pouco, aproximando a cabeça da mesa como se contasse um segredo.

            – Por que ele é mais gostoso quente! É uma jogada de marketing!

            Deus abençoe a bebida e o álcool: elas riram de novo!

            – Olha só – disse uma delas um pouco depois – você é muito engraçado e eu não queria te desanimar, mas ela não vai ficar com ninguém hoje.

            – E quem disse que eu quero ficar? Eu sou um rapaz sério! Quero namorar, casar, ter três filhos com nomes muito legais, que demoraremos meses para escolher mas que em semanas transformaremos em diminutivos, um cachorro para eu poder reclamar com ele das coisas que os cachorros fazem porque afinal são cachorros e envelhecer o suficiente para achar divertido jogar dominó – quem sabe ser campeão do clube da terceira idade, ou amigos do bairro…

            – Ah há! – riu uma outra garota, loura com os olhos castanhos mel – é sério, a Kaori terminou o namoro de seis anos pouco tempo atrás…

            – Isso é verdade? – ele perguntou a menina que agora sabia o nome.

            – É sim – ela respondeu.

            Não houve complemento na frase. Isso foi tudo. Se ele guardara uma carta debaixo da manga essa era uma excelente hora para usá-la.

            – Tudo bem. Então façamos o seguinte – disse. – Eu sou um cara competitivo, você é competitiva?

            – Sou!

            – Pois eu sou muito mais competitivo que você! Quer competir?

            Ela sorriu. Mas não demonstrou abertura nenhuma.

            – Façamos o seguinte. Vamos apostar alguma coisa. Bem, eu aposto que consigo te beijar sem tocar os seus lábios!

            Está certo, estava longe, bem longe mesmo, de ser original, mas com relação à carta na manga: ele não tinha nenhuma carta na manga.

            – Vamos apostar vinte reais. Se eu perder, pelo menos te ajudo a ficar bêbada mais rápido, o que acha?

            Todos os olhos que haviam convergido para ele agora miravam os olhos puxados de Kaori. Ele só tinha uma chance, muito pequena, de que nenhuma delas tivesse um dia apostado uma coisa dessas com ninguém antes. E foi então a vez da sorte lhe sorrir.

            “Se você quer rir tem que fazer rir”, lembrou.

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Alice – Tom Waits

Publicado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , , às Fevereiro 12, 2008 por yohankoh

Alice – Tom Waits

It’s dreamy weather we’re on
You waved your crooked wand
Along an icy pond with a frozen moon
A murder of silhouette crows I saw
And the tears on my face
And the skates on the pond
They spell AliceI disappear in your name
But you must wait for me
Somewhere across the sea
There’s a wreck of a ship
Your hair is like meadow grass on the tide
And the raindrops on my window
And the ice in my drink
Baby all I can think of is AliceArithmetic arithmetock
Turn the hands back on the clock
How does the ocean rock the boat?
How did the razor find my throat?
The only strings that hold me here
Are tangled up around the pierAnd so a secret kiss
Brings madness with the bliss
And I will think of this
When I’m dead in my grave
Set me adrift and I’m lost over there
And I must be insane
To go skating on your name
And by tracing it twice
I fell through the ice
Of AliceAnd so a secret kiss
Brings madness with the bliss
And I will think of this
When I’m dead in my grave
Set me adrift and I’m lost over there
And I must be insane
To go skating on your name
And by tracing it twice
I fell through the ice
Of Alice
  Alice – Tom Waits
Tradução: Julio Moraes
É tempo de sonhos, este o nosso.
Você brinca com um galho qualquer…
Num lago congelado sob a lua fria,
Como a sombra de corvos algozes,
De meus olhos, eu via
Lágrimas caírem velozes.
E os meninos patinando,
Desenhavam o nome de Alice.
Desaparecerei em teu nome,
Mas talvez você deva me esperar,
Em algum lugar, no meio do mar,
Vejo um navio que some.
Ah! Seu cabelo, como um verde sereno
Que ondula pela maré,
A chuva sobre a janela, no sopé,
Ou ainda o gelo que derrete meu veneno.
Caralho, só penso em Alice!Eterno tique-taque, eterno ócio,
Não tiro os olhos do ponteiro;
O mar agita o barco sem propósito,
E o corte da navalha é tão certeiro!
Só um fio ainda me prende nessa bosta,
Vagar naquele porto, na costa.
De repente, um beijo secreto:
Êxtase e paixão.
Vou ficar pensando nisso, estou certo
Quando estiver enterrado dentro do caixão.
Mas devo estar pirando!
Quando ponho os patins e ando
Naquele nome que escreveram no gelo,
Duas vezes ainda, querendo tê-lo.
Mas temo cair sozinho no frio
De Alice…

break on Through

Publicado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , às Janeiro 24, 2008 por yohankoh

Ler ao som de Stay: U2.

Já era sua terceira noite em claro. Novamente estava muito nervosa para dormir, o sono simplesmente não vinha; a cabeça ocupada demais ruminando tudo que havia acontecido nos últimos dias. Isso e a maldita fome. Jamais tinha sentido algo parecido antes, no entanto nada lhe parava no estômago. Aqueles que já haviam passado pelo que ela estava passando, ou próximo disso – porque as coisas nunca são exatamente iguais, a despeito do que pensam alguns pais autoritários ou alguns casados de longa data -, lhe disseram que isso era normal; “É assim mesmo”, diziam. Ela não queria acreditar, esperava que passasse, como um resfriado ou um amor jurado eterno.

Um relógio de rua mostrava a temperatura: vinte e dois graus, mas ela sentia como se estivesse muito mais frio; tremia. Esperou por um momento e lá estava: três da manhã! A fome persiste, ainda mais intensa, mas ela não tem mais coragem de tentar ingerir qualquer coisa. Mais um pouco e a alvorada! E enfim talvez o sono. Ao menos tinha sido assim nos dois dias anteriores em que se negou a dormir durante o dia, pois tinha medo que se o fizesse, se começasse com esses hábitos, sua vida realmente nunca mais seria a mesma. “talvez se eu não ceder, talvez enquanto tiver esperança”, pensava. Mas nesse ponto, já era tarde demais, e no fundo de seu coração ela sabia disso.

Uma loja de conveniência 24 horas, na esquina de sua antiga casa, longe de onde seria obrigada a morar. Devia ter andado quilômetros até parar ali, no entanto não se sentia cansada. Entrou por um pacote de cigarros. Não fumava; nem sequer queria fumar. Pediu o maço ao atendente, mas o fez sem educação. Provocava o homem, com suas palavras primeiro e depois com seu corpo. Devia estar enlouquecendo, mas se achou sexy, e até o próprio fato de poder estar ficando maluca deixava a tudo mais excitante. Procurava ao mesmo tempo por uma boa transa ou um bom soco da cara – um bom tapa que fosse, se aquele homem não tivesse coragem de lhe bater como merecia – era uma disputa entre sua boca pecaminosa e seu corpo buscando pelo pecado. No entanto ambos queriam a mesma coisa, a coisa que lhe fez entrar pelos cigarros: queria se sentir viva!

Puxou um cigarro do maço sem sequer ter pagado por ele, colocou na boca e a estendeu para que o atendente o acendesse. Não conseguiu nem a transa nem os socos, esperava ao menos esse fogo. Talvez estivesse mesmo morta, ou talvez fosse realmente demais esperar que o homem acendesse seu cigarro depois do que dissera ou de quase ter se despido e atirado sobre ele ali mesmo. Não sabia ao certo, mas não acreditava estar morta. Não podia acreditar nisso! Sentia frio e sentia fome.
E alguma coisa dentro dela sabia que apesar de não ter correspondido aos apelos de sua boca ou satisfeito os de seu corpo, essa última ele poderia resolver. Olhou novamente para o homem: um olhar esguio. Retirou o cigarro ainda apagado da boca e pensou até escutar a mente do sujeito dizendo: “lá vem ela de novo! O que será dessa vez? Acho que vou ter que dar um jeito nessa mulher mesmo!

Ela sorriu com desdém, mas algo em seu íntimo já havia sorrido antes. Se ele quis dizer “alguns bons socos” ou “uma boa transa” com aquele “dar um jeito” isso já não fazia diferença alguma: já era tarde demais.

Sentada ao lado do corpo inerte do plantonista já sem sangue algum no corpo ela sentiu algumas lágrimas lhe descerem o rosto, mas até para elas o tempo havia se esgotado; levavam embora seus últimos e insistentes traços de humanidade, que já não insistiam mais. Já não sentia mais fome. Tirou o isqueiro do bolso do homem morto e acendeu o cigarro. Sua boca ainda ligeiramente trêmula e vermelha sujou-lhe a ponta – lhe pareceu como batom. Com algum esforço deu a primeira tragada de sua vida. Sentiu a fumaça quente descer-lhe a garganta até os pulmões. Demorou um pouco, como se esperasse que preenchesse o enorme vazio de seu interior, e a soltou. Não havia surtido efeito. Era óbvio. Riu de sua própria ingenuidade. Nada, em tempo algum preencheria aquele vazio… “Mas ao menos não preciso me preocupar com a fumaça ou o cigarro”, pensou, “vampiros não morrem de males causados pelo tabagismo!”.

Longe dali, longe de tudo que conheceu, de sua vida e seu passado, ela dormiu um sono pesado quando o amanhecer chegou.