Arquivo para Novembro, 2007

Um conto de Natal

Postado em S1 - por Marcelo Varanda em Novembro 28, 2007 por yohankoh
Mudando o estilo dos textos e puxando um pouco mais para o gênero
que procurarei seguir em minhas obras, abaixo encontra-se a
introdução que desenvolvi para um conto de natal.

Chegou em casa tarde. Entrou e fechou a porta, girando apenas uma vez a chave. Frequentemente se perguntava por que existiam pessoas que insistiam em dar a segunda volta. “A primeira não fecha de verdade, é só brincadeirinha!”. Demorou a acender as luzes só pra sentir um pouco mais aquela escuridão silenciosa. Atrás de si as lâmpadas da árvore de natal brilhavam intermitentes, amarelas, vermelhas, azuis e as novas: verdes; ele podia ver os reflexos de suas luzes na parede, transformando galhos em monstros malévolos feitos de sombra.

- Papai, vem, vamos montar a árvore!…

A princípio ele apenas respondia: “mas a árvore já está montada, querida”, somente para ouvir a voz da filha chamando novamente. Isso mesmo sabendo que a menina morrera junto com a mãe havia três anos. Dessa vez ele apenas acendeu a luz.

* * *
- Olá, você tem duas mensagens em sua caixa de mensagens? Deseja ouvir suas mensagens agora?

Ele apertou o botão da secretária eletrônica distraidamente enquanto abria a segunda gaveta do móvel abaixo do aparelho, contando de cima, e retirava de lá novamente a caixa com laço vermelho que um dia já abrigou seu último presente para a filha.

- Primeira nova mensagem: mensagem recebida hoje, seis horas atrás…

Sentou-se na cabeceira da mesa de jantar com lugar para uma dezena de pessoas e depositou a caixa no tampo de vidro, feliz por livrar-se de seu peso.

- Oi, Paulo, sou eu, a Dani, você está bem? Desculpa estar ligando, é que você não me ligou de volta aquele dia e eu fiquei esperando… estou com saudades, me liga quando puder.

Abriu o laço com carinho, como se ainda fosse tirar de lá o próprio vestidinho branco com corações com o qual presenteara a menina mais de uma semana antes de seu aniversário – não conseguia agüentar de ansiedade para ver quão linda ela iria ficar e seu sorriso ao exibir-se no espelho.

- Segunda nova mensagem: mensagem recebida uma hora atrás…

Sentiu outra vez o metal gelado encostar sua orelha, mas já não lhe causava sequer arrepios. Girou o tambor ao acaso e destravou o gatilho. Tudo feito com calma, numa lentidão mecânica. Uma única pergunta insistia em torcer-lhe a mente como se a envolvesse com algum tipo de arame e puxasse: “Por que eles as levaram ao invés de mim?”. Por vezes havia se perguntado o que faria se fosse obrigado a escolher entre a vida de sua mulher e filha ou a dele, por um maníaco ou coisa assim, mas nunca conseguiu responder a si mesmo com a certeza e a sinceridade que gostaria. E, agora que conseguia isso não fazia mais diferença; no mais, eles não lhe deram o poder da escolha.

- Oi, Paulinho, você ta ai? Sou eu de novo, a Dani. Vou estar na cidade amanhã, por que não jantamos juntos naquele restaurante de sempre? Já faz tanto tempo! Se lembra como a Katie adorava ir até lá e pedir o “sorvete gigaaaaante”? Aposto que se ela tivesse ai te convenceria a ir mesmo que arrastado! Bem, me liga quando puder, bjos!

Respirou fundo. Olhou pela janela procurando alguma estrela no céu. Seria uma pena ou uma dádiva morrer sob um céu estrelado? Colocou a arma novamente sobre a mesa. A resposta teria de esperar: na noite seguinte precisava jantar com a irmã.

- Papai, papai, vamos, vamos com a titia! Eu vou querer aquele sorvete gigaaaaante… – ouviu dizer a mesma voz que o saldara ao chegar.

…“Sua irmã jogara sujo.”.

Abriu outra vez a caixa. Pegou o laço de sobre a mesa de jantar, mas precisou lutar para mantê-lo seguro, pois ele insistia em escorrer-lhe dos dedos, como líquido pegajoso por entre os dedos, vermelho sangue. E de uma hora para outra tudo estava simplesmente envolto por aquele tom rubro. Forçou os olhos e balançou violentamente a cabeça – algumas vezes isso funcionava. Para sua sorte, essa foi uma delas, não seria hoje que ficaria louco. Já chega! Arrumaria tudo na manhã seguinte! Ninguém iria visitá-lo mesmo. E ainda que entrassem lá para uma xícara de açúcar de última hora, o que pensariam? Que ele era uma maníaco suicida?

Caminhou até a ponta das escadas que levavam aos quartos no piso superior. Descalçou os sapatos e calçou os chinelos: seus pés estavam o matando! Subiu e a caminho do quarto pegou uma garrafa de água: suava muito às noites e acordava frequentemente com a boca seca. Foi direto pra o quarto no fundo do corredor, o banho também ficaria para a manhã seguinte.

Deitou-se e ajustou o despertador para as oito horas, desligou o abajur sobre o criado-mudo ao lado da cama e apoiou a cabeça no travesseiro.

Mal tinha cochilado pela primeira vez quando um baque seco e ensurdecedor o acordou. Estava acostumado com pesadelos o suficiente para saber que desta vez não se tratava de um. Acendeu novamente o abajur e ficou olhando para os lados repetidas vezes até encontrar o que procurava. Anotou numa folha de postit: “uma bala de revolver calibre 38, não esquecer”. Colou-a onde ficasse visível e voltou a apagar o abajur. Repousou a cabeça novamente e em pouco tempo adormeceu.

Noosfera

Postado em Noosfera em Novembro 27, 2007 por yohankoh

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Terça-feira

Postado em Dias em Novembro 20, 2007 por yohankoh

É preciso que se encontre um meio de chegar antes, passar na frente. Isso, mesmo que tal meio fira a moral ou seja dela completamente desprovido. Ah! E que aqueles que se dizem cheios dessa coisa que é a moral fiquem atrás e me olhem com seus olhos moralistas pelas costas.

No mais, “a moral é a fraqueza do cérebro”, como afirmou Rimbaud.

E não é preciso usar o cérebro para pensar a respeito. Só é preciso que se consiga um meio de chegar antes. Passar na frente. Eis tudo!

O som da cidade me inebria, e o cheiro da borracha queimada que entope minhas narinas.

Toda manhã.

Noosfera

Postado em Noosfera com as tags , , em Novembro 15, 2007 por yohankoh

Jesusalém

Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , , em Novembro 13, 2007 por yohankoh
Para desespero dos céticos,

Deus,

além do quartzo

e das orquídeas,

também criou a gravidade.

JERUSALÉM

Certa vez o Rei Davi adormeceu e pela noite alongada da terra dos filhos de Israel, sete anjos bons do Senhor desceram e lhe contaram de um mundo que seria seu. Descreveram-lhe que este mundo todas as coisas estavam sujeitas a cruéis leis de Javé. Disseram-lhe que nesta terra, não apenas os objetos, os animais e as pessoas pregavam-se ao chão, mas também que a água despencava pela manhã, o sol pela tarde e os cometas pela noite. Também os continentes mantinham-se rijos. Os mares ficavam indefesos. As ilhas pregavam-se ao solo sem conseguir abrir suas asas e alcançar as campinas de Javé.
Contaram-lhe, os sete anjos bons do Senhor, que apenas os pássaros e os loucos conseguiam fugir desta cruel lei, mas que também eles deviam retornar e o próprio mundo se pregava a outros mundos, que Davi se pregava a todos os corpos vivos sob o sol de Javé, que Jerusalém se pregava à outra Jerusalém.

Certa vez o Rei Davi adormeceu e pela noite alongada da terra dos filhos de Israel, sete anjos bons do Senhor desceram e lhe contaram de um mundo que seria seu. Descreveram-lhe que este mundo tudo se sujeitava ao vento. E que as colheitas, os arados e os livros eram esquecidos com o passar das luas. Que não apenas as palavras de Javé, mas os rostos dos filhos, o amor das esposas, a visão das montanhas de Gabaon, tudo se queimava como um filtro e que sob o sol de Javé os homens esqueceriam e tornariam a esquecer. Contaram-lhe os anjos que apenas os pássaros e os loucos conseguiam fugir desta cruel lei, mas que também eles esqueceriam um dia e se esqueceriam uns dos outros, que Davi se esqueceria de todos os corpos vivos sob o sol de Javé, mas que Jerusalém não se esqueceria, pois seu nome era Javé.

Quando acordou, Davi se lembrou que era rei num sonho criado por Javé.
Quando acordou, Davi se lembrou que era rei do mundo criado por Javé.

Retalhos

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , em Novembro 10, 2007 por yohankoh

“Está tudo errado…” releio essa mensagem ainda mais uma vez. “Vai depender…”. A festa continua em alguma casa perto. Presto atenção por um tempo, mas logo me canso; fecho a janela para afastar o frio e a música brega. Aperto o “enviar”. Na mensagem só consegui escrever: “Feliz Aniversário”. Logo a receberei em meu outro celular; já não há qualquer sentimento de surpresa. Este ano vou guardar na caixa de mensagens.

Basta que se repare um pouco para notar que nossas vidas têm muito de filme. Geralmente daqueles de humor barato, nos quais o protagonista só se fode – por falta de termo melhor. Hoje, no meu caso, isso ficou bem visível. A câmera certamente teria focado o sujeito assim como meus olhos fizeram: meio que de relance. E desde então o telespectador mais experiente já saberia que alguma coisa aconteceria que teria a ver com o tal sujeito, pois não são dados na vida, como nos bons filmes, esses tipos de foco por acaso, mesmo que de relance…

É essa maldita vontade de chorar. E depois o cartão sem crédito, o trem que acaba de partir, os humanos demasiado humanos. Coloco os fones de ouvido e aumento o volume até não poder mais ouvir meus pensamentos… Impossível!

E é em meio ao som dessas lágrimas caindo que vislumbro a solidão do meu caminho… Certa vez li que existem sentimentos tão profundos, tristezas tão implacáveis, que até às nuvens fariam chorar. Ou talvez seja só algo que inventei… Seja como for, parece que a chuva vai demorar a passar.

 

 

Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se instalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.

Agora eu os pergunto: vocês conseguiram sentir a morte do menino? Não?

Eu não os culpo, a morte alheia já é algo que não costuma mesmo causar qualquer espécie. Agora imaginem então se esse menino fosse alguém da família de vocês, isso mudaria alguma coisa?

Certo, desculpem! Deste modo a coisa fica muito radical… Tentemos assim então:

( 1 )
Ele a deixou. Não tinha certeza se seria capaz, mas foi. Não soube o que pensar de si mesmo. Gostava dela, não tinha dúvida. Haviam trocado beijos, palavras, momentos o suficiente para ela o amar do fundo do coração, e, principalmente, para querê-lo só para ela. E ele a entendia, seus sentimentos justos. Mas entender não era suficiente.

Ela queria que ele deixasse alguém muito importante, que ele não deixaria por beijos e palavras ou dias, ou meses ou tempo que fosse; em tempo algum. E percebeu isso naquela mesma hora em que ela o fez decidir. Talvez tenha sido isso a lhe dar forças para deixá-la, mas ele duvidava. Para ele, havia apenas fugido. Não sabia o que pensar de si mesmo.

Era isso que passava em sua mente quando entrou na estação aquele dia quente, apesar do verão ainda demorar a chegar – e os meteorologistas na TV disseram que iria chover! “Quantos, como ele, não haveriam de estar segurando seus guarda-chuvas e agasalhos extras?”. Procurou pelo bilhete de passagem… “Só faltava essa!”. Encontrou logo no segundo bolso. Ficou feliz.

Olhou para frente novamente e notou um homem que já havia visto algumas vezes antes, naquele mesmo lugar. E lá ia ele de novo! Fingir que não havia notado que a catraca sem fila não possuía o mecanismo de passagem por cartão para então poder passar na frente dos demais na fila ao lado. Era um absurdo que ninguém mais notava isso! Ele não podia ser o único a vê-lo ali todos os dias. Claro que deveriam colocar o tal mecanismo em todas as catracas, formar-se-iam menos filas, mas da mesma maneira que o sujeito não tinha culpa, ele também não e assim mesmo não usava nenhum truque para passar na frente dos outros. Estava decidido – assim como se decidi qualquer coisa sem pensar direito só para que a vida mude um pouco – dessa vez ele ao menos faria uma piada a respeito antes de deixar o espertinho passar.

( 2 )
Saiu de casa. Não que houvesse alguém para olhá-lo sair. Não mais. Mas ele não se importava, fora ele quem escolheu assim. Na verdade não achou que tivesse escolha. Teve apenas que tomar uma decisão – dessas que se toma só para dar uma chance da vida mudar um pouco.

Havia chegado cedo na noite anterior. Se alguém da faculdade o contasse acharia que era coisa de filme. Havia lido em algum lugar que nossas vidas têm muito de filme, mas não leu como se realmente acreditasse, ou como se isso importasse de verdade. Chamavam-no de tio lá. Sempre ria quando se lembrava disso. Ele tio?! Como o tempo passa mesmo! E o tempo é capaz de fazer as pessoas mudarem, os sentimentos mudarem… sua mulher mudar.

Não disse nada quando empurrou a porta semi-aberta do quarto e a viu nua naquela posição com aquele homem se aproximando cada vez mais… e mais. Deus, até achou a coisa sexy, ficara repentinamente excitado!

Fechou a porta o mais forte que pôde! Queria ter algum poder como o dos heróis dos quadrinhos para ver através das paredes e conseguir vislumbrar a cara da mulher ao ouvir a batida. Era realmente uma pena!

Não voltou mais para a casa até o dia seguinte, quando realmente deveria ter voltado antes de tudo. Chegou a pensar até que a culpa havia sido dele – quem mandou voltar antes do combinado? “A ignorância é uma benção!”.

Foi ao trabalho. O dia demorou a passar, mas ele rezou para que demorasse ainda mais. Sabia que quando estivesse sozinho e com a mente desocupada não iria agüentar. Iria lembrar que os homens também choram… E como iria lembrar!

Chegou e abriu a porta com calma. Usou apenas uma das mãos. A outra segurava firmemente uma pistola calibre 38 que já fora de seu pai e do pai de seu pai antes dele. “É, já está na família faz tempo, e agora vai deixar a família menor”. Riu sozinho, mas não havia o menor resquício de felicidade em seu coração. Não mais. Havia chorado o tempo todo, desde que saiu do trabalho e entrou naquele trem, com destino a Zona Sul e em algum momento aquela água toda levara junto toda a felicidade. Lembrou de estar com pressa quando usou seu truque para passar pela catraca, queria logo chegar em casa e fazer o que tinha que fazer! Ele sempre estava com pressa, pensou – costumava trazer um pão de uma padaria que sua mulher adorava e precisava chegar rápido, antes que murchasse, era um pouco fora do caminho, mas nunca ligou de chegar um pouco mais tarde. Agora até isso lhe pareceu suspeito. Sentiu-se ainda pior.

Não é fácil matar uma pessoa. E, tinha como certo que a todo crime há um castigo. No caso de matar, ele chega muito rápido, muito. Leu em algum lugar que no máximo três segundos depois, enquanto a mão ainda dói queimada pelo calor excessivo e o cheiro de pólvora chega às narinas.

Não tinha certeza se seria capaz de fazer aquilo, mas foi. E não soube o que pensar de si mesmo. Sobre o corpo imóvel de quem amava profundamente chorou um rio de lágrimas. Havia enlouquecido, ou o mais próximo disso que já havia chegado na vida. Por que, diabos, teve de esperar que ela o abraçasse antes de apertar o maldito gatilho?! Deu vários golpes em si mesmo, mas sequer sentiu dor, nenhuma dor de nenhum golpe.

A última coisa que pensou antes de se atirar de cabeça contra a parede foi que a vida continuava… ao menos para alguns.

( 3 )
Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se estalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.

Gostaria de só se lembrar disso pelo resto da vida. Que durou pouco, pois um dos seguranças o alvejou – aquele maior de cor parda que nunca vira lá antes, mas que portava uma arma no coldre e de quem nunca se esqueceria o rosto: o rosto daquele homem que chegava cada vez mais perto de sua “ex”-mulher duas noites atrás. Lembrou-se que a vida continua… ao menos para alguns, pois para todo crime há um castigo, e o daqueles que matam é bem rápido, não mais que três segundos depois. “Qual teria sido o crime do garoto?”.

Sentiu o sangue queimar na garganta quando riu pela última vez, estava caído ao lado do menino; dois guarda-chuvas jaziam junto deles e lhes faziam companhia… “Hei, cara, sua mulher ta te traindo de novo e você quer assistir de camarote, só pode ser isso, né? Vai dizer!”… “Como ele iria saber?”.

“Se nasce por sorte, se vive por nada e se morre por acaso”.

Noosfera…

Postado em Noosfera em Novembro 8, 2007 por yohankoh

Atravessado

Postado em Atravessado - por Carlos Freire com as tags , em Novembro 7, 2007 por yohankoh

[1]
Seus passos esmagavam a calçada. Olhos injetados, suando profusamente. Há quinze minutos andava de um lado olhando para a calçada oposta. Teve então o ímpeto de atravessar aquela avenida movimentada de uma vez – o fez.

Morreu atropelado.

[2]
A luz do semáforo estava verde, mas ainda assim o ônibus à sua frente insistia em não arrancar. Vendo que iriam lhe ultrapassar pela esquerda, cortou violentamente o ônibus. Em seguida, atropelou um homem.

[3]
Casados há três anos, ela percebeu que não amava mais seu marido. Passou o dia com um rapaz que conhecera na academia: tomaram sucos num quiosque no mercado e depois foram a pé a um motel ali próximo – sem saber que ele a seguia do outro lado da calçada.

[4]
Hoje pela manhã, chegou atrasado no trabalho. O ônibus parara no meio do caminho. O motorista chegou a descer para ver um acidente:  da janela esquerda dava para acompanhar toda aquela gente, alguns sorrindo, cercando algo. O ônibus partiu em seguida, e o motorista continuou falando alto com o cobrador  mas com os fones não ouvia quase nada. Pouco lhe importava – o chefe faltaria hoje para resolver “assuntos pessoais”. Por ele, podia faltar todos os dias.

Quando o ônibus passou por um motel barato, logo à frente, viu pela janela à sua esquerda um casal entrando a pé pela entrada de carros. Não soube porque, mas achou graça.

A MORTE DO CONDE NEUBLATTEN

Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , em Novembro 5, 2007 por yohankoh

A MORTE DO CONDE NEUBLATTEN

Todas as grandes nações do globo sempre guardam com carinho um punhado de figuras heróicas. São guerreiros valorosos, homens de honra e grandes monarcas. Isto todos o sabem. Não digo tais coisas apenas de nós, europeus, que dentre tantos grandes homens já tivemos os imperadores romanos, a dinastia dos carolíngios ou os santos de todas as nações, também dos hindus com seus sábios, dos árabes com Saladino e dos orientais com Genghis Khan, sem contar, é claro, a situação dos povos do novo mundo.

Aqui na Prússia, de nossos presentes dias, vivemos sob a chama viva e a fáustica bandeira de nosso monarca Frederico II, imperador da Grande Águia, amparado de ambos os lados por um respeitável batalhão de generais, nobres de alto escalão e grandes sábios. A mim, por outro lado, tais nobres não se igualam a outra de que lhes contarei em breve; tenho meus próprios gostos e minhas próprias preferências e, preciso afirmar, figura pública alguma supera em respeito e em estimas as que nutro pelo Conde Neublatten. Não que o conde seja o melhor dos duelistas, como Plfieger, ou um grande cavaleiro como Hagelstrom, ou ainda Meyerhold, com a lira de seus versos… Também em beleza e em cortesia existem rivais a sua altura mas, ainda assim, digo-lhes que Neublatten é o maior de todos… Maior surpresa ainda lhes causaria se lhes dissesse que o conde, que tantas estimas está recebendo de mim, na verdade, não existe.

Sim, sim, entendo vossa indignação ante tal absurdo, mas façamos as devidas explicações. Com tal fim, contarei os caminhos pelos quais eu, inicialmente um humilde cobrador de impostos, inteirei-me sobre a existência – e a inexistência – do Conde de Neublatten, sobre sua vida, seus feitos e, mais importante de tudo, sobre sua trágica (e inexistente) partida desse mundo.

Tomei conhecimento de Neublatten em meus primeiros meses de ofício, quando fui incumbido da inspeção de coletas tributárias sobre o arenque transportado do Báltico. Apesar da relativa tranquilidade daqueles primeiros dias, alertavam-me os colegas que não descuidasse de Neublatten, que diziam ser como um “grande vigia” da burocracia dos portos, atento aos mínimos detalhes e às mínimas transações dos funcionários. Decorreram-se alguns meses sem incidentes, mas em maio, o atraso de uma traineira lituana me obrigou a segurar certos dados que constariam num relatório. Foi a primeira aparição de Neublatten em minha vida: tal irregularidade não havia passado desapercebida por seus olhos, e, logo no dia seguinte, recebi uma carta de timbre maravilhoso: um cavalo negro e, ao fundo, um castelo. Sua caligrafia era impecável, meticulosa, trabalhada. Em poucas palavras, alertava-me do ocorrido passando-me, por ora, uma simples advertência.

Deixei de dar importância à tal carta já algumas semanas depois: os bons comércios com os navios holandeses passou a tomar boa parte de meus dias, e, na primavera, quando o Báltico se reanimava de comerciantes, fizemos bons contratos que renderam excelentes divisas, com o arenque, a lenha e o sal. Naqueles dias, as necessidades deadquirir material e mais madeira nos obrigaram a entrar em contato direto com os holandeses, feito através de um meirinho de grande discrição. O plano articulou-se de maneira sublimemente discreta, para que Neublatten não tomasse ciência das transações, teoricamente proibidas. Mas o conde era por demais inteligente: uma vez mais nos surpreendeu, desta vez adiantando-se às nossas medidas. Comunicou não a nós, mas aos próprios holandeses o fato, indicando que tinha contatos não apenas na burocracia dos portos, mas também nos outros países. De Kronenberg e Postdam chegavam relatos de interveções semelhantes, todas repletas de seu formalismo e muito bem redigidas, timbradas com a insígnia de seu cavalo e seu castelo. Após a intervenção do trigo em 17–, sucederam-se as do sal, do cobre, do arenque (novamente feita junto aos holandeses), do gado, dos tecidos de Flandres, do açucar brasileiro, a dos mármores e, por fim, das louças. Também relatos de contatos e postos avançados em Roterdã, Londres, Bruxelas e, diziam alguns, nas Antilhas e em Georgetown.

Foi por volta do ano seguinte que se iniciam as desconfianças a respeito de Neublatten e seu incrível poder de se antecipar a todos os demais (eram poucos, contudo, os que afirmavam a tese que mais tarde se tornaria a dominante, a de que o conde jamais existiu). A diminuição de suas sanções, certo abrandamento das multas e até mesmo um enfraquecimento percebido na maneira da caligrafia sugeriam que Neublatten vinha se enfraquecendo, talvez estivesse até enfermo. Por algum tempo, é bem verdade, a torrente de impostos, coletas e débitos ressurgiu com grande ímpeto, mostrando que a situação havia se normalizado. No ano seguinte, contudo, surgiram as primeiras acusações da inexistência do conde: um escrivão da Silésia afirmava ter visto um superior seu assinando um édito agrícola usando um selo “de cavalo e castelo negros”. Acusações semelhantes espalharam-se pelo país e, no outono, seguiam para o tribunal trinta e três escrivões e doze agentes, acusados de forjarem éditos em nome do Conde Neublatten. Em sua defesa, os chamados “trinta e três” alegavam que cumpriam ordens superiores. No final, foram absolvidos por falta de provas e porque parecia bastante inverossímil às autoridades que agentes e funcionários tão díspares – alguns eram da agricultura, outros do comércio, outros do fornecimento de armas e munições, outros do ministério de madeiras e florestas, extração de cal, suprimeiros alimentares e trigo além do ministério das ciências e tecnologia, assuntos religiosos, emissão de títulos, contratos de muralhas e fortalezas silésias, fornos de carvão vegetal e estradas e moinhos – estivessem todos envolvidos. A absolvição dos acusados foi, assim, assinada no verão de 17–, não sem grande repercursão nacional.

Foi só então que o Gabinete Real decidiu intervir na situação e, não se sabe exatamente por quais mecanismos, Neublatten oi transferido para um posto técnico da alfândega da Pomerânia, donde, afirmavam os periódicos, veio a morrer de causas naturais, embora o legista tenha desconfiado de certos “males reminscentes nos rins”. A descoberta de algumas cartas pessoais em suas posses elevavam como a infiltração do Conde Neublatten na burocracia prussiana havia sido ainda maior: soube-se, por exemplo, que a carta de absolvição dos “trinta e três” havia sido assinada por ninguém menos que ele, disfarçado sobre o nome de um certo “Comendador Alfonso de H.”, algo assim, (o nome já me falha a memória, mas que se tratava de uma espécie de anagrama de seu próprio nome de batismo, isso me lembro muito bem). Por fim, quando se achava que Neublatten havia morrido, sido enterrado e sepultado na Catedral de Kronenberg, novos documentos começaram a surgir em Dantzig, Ibermas e na Letônia. Muitos se diziam sucessores diretos da jurisprudência de Neublatten, emitindo títulos, leis, letras cambiais, éditos agrícolas e todas as outras parafernálias burocráticas. Pelas ruas de Dantzig, registravam-se de quinze a vinte novas empresas por mês, todas timbradas com insígnia real, sem dizer das casas de importação, dos armazéns e dos eventuais bêbados da capital que juravam serem amigos íntimos do conde. A paranóia e o caos causados por tal crise só cessou quando o Gabinete Real instaurou um “Comitê de Controle Caligráfico” de documentos. Coube a diversos técnicos e administradores (inclusive a minha pessoa, já então em idade um tanto quanto senil), a ler e identificar as eventuais fraudes.

Dessa maneira, oito nonos daquelas pretensões e falsos “condes” foram detectados e devidamente punidos. Se tratava, como se pode imaginar, de homens que queriam valer-se do mistério e do poder do timbre para obterem méritos próprios. Tal trabalho, se por um lado me anima, já que me deparo constatemente com cópias quase impecáveis e muito semelhantes à caligrafia de um homem que deveria estar morto, por outro me fatiga um pouco, pois sinto que os anos já estão pesando sobre mim. Sim… Em tais dias, o que mais quero é que baixe logo esta poeira, já que ainda tenho inúmeros projetos que pretendo realizar até o final de meus dias. Penso, por exemplo, em cultivar a arte da jardinagem ou quem sabe dedicar-me às belas artes… Talvez escreva mesmo um livro, em que conte às futuras gerações da gloriosa Prússia de Frederico II e de seus descendentes sobre as peripécias e astutices do Conde de Neublatten. É preciso que se esclareça à história a verdade a seu respeito. Julgo ridículas as versões correntes (tanto a oficial, que defende a morte de Neublatten nos campos da Pomerânia quanto aquela versão dos opositores que afirmam que o conde não passou de uma invenção do Gabinete Real e do próprio Frederico II para aumentar seu poder pelo país, sendo o nobre devidamente “assassinado” quando deixou de interessar ao governo). A verdade, e eu posso dizê-la melhor do que ninguém, é que o conde não está morto e, pelo contrário, segue em boa saúde, a despeito de certas “dores reminiscentes nos rins”.

Atualmente, encontra-se numa de suas várias propriedades, uma casa em Neufchateau que pouco lembra o castelo negro de suas insígnias. Já ele não tem mais idade para os cavalos ou as mulheres. Não poderei lhes dizer seus próximos passos, são planos incertos: nesta fase de sua vida, em que parece que já se conquistou todo o mundo, sente-se um certo esplendor e uma certa tranquilidade senis. De suas futuras pretensões, contudo, posso lhes confessar duas ou três: talvez o conde de Neublatten tencione dominar, ainda na primavera desse ano, a Casa da Moeda ou a Companhia de Exportação de Navios e Docas. Talvez seja a vez da Indústria Têxtil sucumbir ao seu mando ou ainda infiltrar-se para dentro do Supremo Tribunal Prussiano. Mas pode ser que suas ambições sejam um tanto quanto mais singelas: dedicar-se a jardinagem ou quem sabe às belas artes.

Neufchateau, 26 de outubro de 17–