Retalhos
“Está tudo errado…” releio essa mensagem ainda mais uma vez. “Vai depender…”. A festa continua em alguma casa perto. Presto atenção por um tempo, mas logo me canso; fecho a janela para afastar o frio e a música brega. Aperto o “enviar”. Na mensagem só consegui escrever: “Feliz Aniversário”. Logo a receberei em meu outro celular; já não há qualquer sentimento de surpresa. Este ano vou guardar na caixa de mensagens.
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Basta que se repare um pouco para notar que nossas vidas têm muito de filme. Geralmente daqueles de humor barato, nos quais o protagonista só se fode – por falta de termo melhor. Hoje, no meu caso, isso ficou bem visível. A câmera certamente teria focado o sujeito assim como meus olhos fizeram: meio que de relance. E desde então o telespectador mais experiente já saberia que alguma coisa aconteceria que teria a ver com o tal sujeito, pois não são dados na vida, como nos bons filmes, esses tipos de foco por acaso, mesmo que de relance…
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É essa maldita vontade de chorar. E depois o cartão sem crédito, o trem que acaba de partir, os humanos demasiado humanos. Coloco os fones de ouvido e aumento o volume até não poder mais ouvir meus pensamentos… Impossível!
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E é em meio ao som dessas lágrimas caindo que vislumbro a solidão do meu caminho… Certa vez li que existem sentimentos tão profundos, tristezas tão implacáveis, que até às nuvens fariam chorar. Ou talvez seja só algo que inventei… Seja como for, parece que a chuva vai demorar a passar.
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Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se instalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.
Agora eu os pergunto: vocês conseguiram sentir a morte do menino? Não?
Eu não os culpo, a morte alheia já é algo que não costuma mesmo causar qualquer espécie. Agora imaginem então se esse menino fosse alguém da família de vocês, isso mudaria alguma coisa?
Certo, desculpem! Deste modo a coisa fica muito radical… Tentemos assim então:
…
( 1 )
Ele a deixou. Não tinha certeza se seria capaz, mas foi. Não soube o que pensar de si mesmo. Gostava dela, não tinha dúvida. Haviam trocado beijos, palavras, momentos o suficiente para ela o amar do fundo do coração, e, principalmente, para querê-lo só para ela. E ele a entendia, seus sentimentos justos. Mas entender não era suficiente.
Ela queria que ele deixasse alguém muito importante, que ele não deixaria por beijos e palavras ou dias, ou meses ou tempo que fosse; em tempo algum. E percebeu isso naquela mesma hora em que ela o fez decidir. Talvez tenha sido isso a lhe dar forças para deixá-la, mas ele duvidava. Para ele, havia apenas fugido. Não sabia o que pensar de si mesmo.
Era isso que passava em sua mente quando entrou na estação aquele dia quente, apesar do verão ainda demorar a chegar – e os meteorologistas na TV disseram que iria chover! “Quantos, como ele, não haveriam de estar segurando seus guarda-chuvas e agasalhos extras?”. Procurou pelo bilhete de passagem… “Só faltava essa!”. Encontrou logo no segundo bolso. Ficou feliz.
Olhou para frente novamente e notou um homem que já havia visto algumas vezes antes, naquele mesmo lugar. E lá ia ele de novo! Fingir que não havia notado que a catraca sem fila não possuía o mecanismo de passagem por cartão para então poder passar na frente dos demais na fila ao lado. Era um absurdo que ninguém mais notava isso! Ele não podia ser o único a vê-lo ali todos os dias. Claro que deveriam colocar o tal mecanismo em todas as catracas, formar-se-iam menos filas, mas da mesma maneira que o sujeito não tinha culpa, ele também não e assim mesmo não usava nenhum truque para passar na frente dos outros. Estava decidido – assim como se decidi qualquer coisa sem pensar direito só para que a vida mude um pouco – dessa vez ele ao menos faria uma piada a respeito antes de deixar o espertinho passar.
…
( 2 )
Saiu de casa. Não que houvesse alguém para olhá-lo sair. Não mais. Mas ele não se importava, fora ele quem escolheu assim. Na verdade não achou que tivesse escolha. Teve apenas que tomar uma decisão – dessas que se toma só para dar uma chance da vida mudar um pouco.
Havia chegado cedo na noite anterior. Se alguém da faculdade o contasse acharia que era coisa de filme. Havia lido em algum lugar que nossas vidas têm muito de filme, mas não leu como se realmente acreditasse, ou como se isso importasse de verdade. Chamavam-no de tio lá. Sempre ria quando se lembrava disso. Ele tio?! Como o tempo passa mesmo! E o tempo é capaz de fazer as pessoas mudarem, os sentimentos mudarem… sua mulher mudar.
Não disse nada quando empurrou a porta semi-aberta do quarto e a viu nua naquela posição com aquele homem se aproximando cada vez mais… e mais. Deus, até achou a coisa sexy, ficara repentinamente excitado!
Fechou a porta o mais forte que pôde! Queria ter algum poder como o dos heróis dos quadrinhos para ver através das paredes e conseguir vislumbrar a cara da mulher ao ouvir a batida. Era realmente uma pena!
Não voltou mais para a casa até o dia seguinte, quando realmente deveria ter voltado antes de tudo. Chegou a pensar até que a culpa havia sido dele – quem mandou voltar antes do combinado? “A ignorância é uma benção!”.
Foi ao trabalho. O dia demorou a passar, mas ele rezou para que demorasse ainda mais. Sabia que quando estivesse sozinho e com a mente desocupada não iria agüentar. Iria lembrar que os homens também choram… E como iria lembrar!
Chegou e abriu a porta com calma. Usou apenas uma das mãos. A outra segurava firmemente uma pistola calibre 38 que já fora de seu pai e do pai de seu pai antes dele. “É, já está na família faz tempo, e agora vai deixar a família menor”. Riu sozinho, mas não havia o menor resquício de felicidade em seu coração. Não mais. Havia chorado o tempo todo, desde que saiu do trabalho e entrou naquele trem, com destino a Zona Sul e em algum momento aquela água toda levara junto toda a felicidade. Lembrou de estar com pressa quando usou seu truque para passar pela catraca, queria logo chegar em casa e fazer o que tinha que fazer! Ele sempre estava com pressa, pensou – costumava trazer um pão de uma padaria que sua mulher adorava e precisava chegar rápido, antes que murchasse, era um pouco fora do caminho, mas nunca ligou de chegar um pouco mais tarde. Agora até isso lhe pareceu suspeito. Sentiu-se ainda pior.
Não é fácil matar uma pessoa. E, tinha como certo que a todo crime há um castigo. No caso de matar, ele chega muito rápido, muito. Leu em algum lugar que no máximo três segundos depois, enquanto a mão ainda dói queimada pelo calor excessivo e o cheiro de pólvora chega às narinas.
Não tinha certeza se seria capaz de fazer aquilo, mas foi. E não soube o que pensar de si mesmo. Sobre o corpo imóvel de quem amava profundamente chorou um rio de lágrimas. Havia enlouquecido, ou o mais próximo disso que já havia chegado na vida. Por que, diabos, teve de esperar que ela o abraçasse antes de apertar o maldito gatilho?! Deu vários golpes em si mesmo, mas sequer sentiu dor, nenhuma dor de nenhum golpe.
A última coisa que pensou antes de se atirar de cabeça contra a parede foi que a vida continuava… ao menos para alguns.
…
( 3 )
Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se estalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.
Gostaria de só se lembrar disso pelo resto da vida. Que durou pouco, pois um dos seguranças o alvejou – aquele maior de cor parda que nunca vira lá antes, mas que portava uma arma no coldre e de quem nunca se esqueceria o rosto: o rosto daquele homem que chegava cada vez mais perto de sua “ex”-mulher duas noites atrás. Lembrou-se que a vida continua… ao menos para alguns, pois para todo crime há um castigo, e o daqueles que matam é bem rápido, não mais que três segundos depois. “Qual teria sido o crime do garoto?”.
Sentiu o sangue queimar na garganta quando riu pela última vez, estava caído ao lado do menino; dois guarda-chuvas jaziam junto deles e lhes faziam companhia… “Hei, cara, sua mulher ta te traindo de novo e você quer assistir de camarote, só pode ser isso, né? Vai dizer!”… “Como ele iria saber?”.
“Se nasce por sorte, se vive por nada e se morre por acaso”.
Novembro 13, 2007 às 2:01 pm
Oi!!!!
Eu já tinha lido esse texto, e achei ele bem bom, como eu disse pra vc antes, vc estava inspirado quando escreveu… eheheh =)
Espero que as suas mentes continuem trabalhando para novos trabalhos, e desejo muito sucesso a vcs!! =) (espero que meu comment vá desta vez!!! =))