Um conto de Natal

Mudando o estilo dos textos e puxando um pouco mais para o gênero
que procurarei seguir em minhas obras, abaixo encontra-se a
introdução que desenvolvi para um conto de natal.

Chegou em casa tarde. Entrou e fechou a porta, girando apenas uma vez a chave. Frequentemente se perguntava por que existiam pessoas que insistiam em dar a segunda volta. “A primeira não fecha de verdade, é só brincadeirinha!”. Demorou a acender as luzes só pra sentir um pouco mais aquela escuridão silenciosa. Atrás de si as lâmpadas da árvore de natal brilhavam intermitentes, amarelas, vermelhas, azuis e as novas: verdes; ele podia ver os reflexos de suas luzes na parede, transformando galhos em monstros malévolos feitos de sombra.

- Papai, vem, vamos montar a árvore!…

A princípio ele apenas respondia: “mas a árvore já está montada, querida”, somente para ouvir a voz da filha chamando novamente. Isso mesmo sabendo que a menina morrera junto com a mãe havia três anos. Dessa vez ele apenas acendeu a luz.

* * *
- Olá, você tem duas mensagens em sua caixa de mensagens? Deseja ouvir suas mensagens agora?

Ele apertou o botão da secretária eletrônica distraidamente enquanto abria a segunda gaveta do móvel abaixo do aparelho, contando de cima, e retirava de lá novamente a caixa com laço vermelho que um dia já abrigou seu último presente para a filha.

- Primeira nova mensagem: mensagem recebida hoje, seis horas atrás…

Sentou-se na cabeceira da mesa de jantar com lugar para uma dezena de pessoas e depositou a caixa no tampo de vidro, feliz por livrar-se de seu peso.

- Oi, Paulo, sou eu, a Dani, você está bem? Desculpa estar ligando, é que você não me ligou de volta aquele dia e eu fiquei esperando… estou com saudades, me liga quando puder.

Abriu o laço com carinho, como se ainda fosse tirar de lá o próprio vestidinho branco com corações com o qual presenteara a menina mais de uma semana antes de seu aniversário – não conseguia agüentar de ansiedade para ver quão linda ela iria ficar e seu sorriso ao exibir-se no espelho.

- Segunda nova mensagem: mensagem recebida uma hora atrás…

Sentiu outra vez o metal gelado encostar sua orelha, mas já não lhe causava sequer arrepios. Girou o tambor ao acaso e destravou o gatilho. Tudo feito com calma, numa lentidão mecânica. Uma única pergunta insistia em torcer-lhe a mente como se a envolvesse com algum tipo de arame e puxasse: “Por que eles as levaram ao invés de mim?”. Por vezes havia se perguntado o que faria se fosse obrigado a escolher entre a vida de sua mulher e filha ou a dele, por um maníaco ou coisa assim, mas nunca conseguiu responder a si mesmo com a certeza e a sinceridade que gostaria. E, agora que conseguia isso não fazia mais diferença; no mais, eles não lhe deram o poder da escolha.

- Oi, Paulinho, você ta ai? Sou eu de novo, a Dani. Vou estar na cidade amanhã, por que não jantamos juntos naquele restaurante de sempre? Já faz tanto tempo! Se lembra como a Katie adorava ir até lá e pedir o “sorvete gigaaaaante”? Aposto que se ela tivesse ai te convenceria a ir mesmo que arrastado! Bem, me liga quando puder, bjos!

Respirou fundo. Olhou pela janela procurando alguma estrela no céu. Seria uma pena ou uma dádiva morrer sob um céu estrelado? Colocou a arma novamente sobre a mesa. A resposta teria de esperar: na noite seguinte precisava jantar com a irmã.

- Papai, papai, vamos, vamos com a titia! Eu vou querer aquele sorvete gigaaaaante… – ouviu dizer a mesma voz que o saldara ao chegar.

…“Sua irmã jogara sujo.”.

Abriu outra vez a caixa. Pegou o laço de sobre a mesa de jantar, mas precisou lutar para mantê-lo seguro, pois ele insistia em escorrer-lhe dos dedos, como líquido pegajoso por entre os dedos, vermelho sangue. E de uma hora para outra tudo estava simplesmente envolto por aquele tom rubro. Forçou os olhos e balançou violentamente a cabeça – algumas vezes isso funcionava. Para sua sorte, essa foi uma delas, não seria hoje que ficaria louco. Já chega! Arrumaria tudo na manhã seguinte! Ninguém iria visitá-lo mesmo. E ainda que entrassem lá para uma xícara de açúcar de última hora, o que pensariam? Que ele era uma maníaco suicida?

Caminhou até a ponta das escadas que levavam aos quartos no piso superior. Descalçou os sapatos e calçou os chinelos: seus pés estavam o matando! Subiu e a caminho do quarto pegou uma garrafa de água: suava muito às noites e acordava frequentemente com a boca seca. Foi direto pra o quarto no fundo do corredor, o banho também ficaria para a manhã seguinte.

Deitou-se e ajustou o despertador para as oito horas, desligou o abajur sobre o criado-mudo ao lado da cama e apoiou a cabeça no travesseiro.

Mal tinha cochilado pela primeira vez quando um baque seco e ensurdecedor o acordou. Estava acostumado com pesadelos o suficiente para saber que desta vez não se tratava de um. Acendeu novamente o abajur e ficou olhando para os lados repetidas vezes até encontrar o que procurava. Anotou numa folha de postit: “uma bala de revolver calibre 38, não esquecer”. Colou-a onde ficasse visível e voltou a apagar o abajur. Repousou a cabeça novamente e em pouco tempo adormeceu.

Uma resposta para “Um conto de Natal”

  1. Eu gosto deste texto… e acho que ele deve ter uma continuação! =))

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