break on Through
Ler ao som de Stay: U2.
Já era sua terceira noite em claro. Novamente estava muito nervosa para dormir, o sono simplesmente não vinha; a cabeça ocupada demais ruminando tudo que havia acontecido nos últimos dias. Isso e a maldita fome. Jamais tinha sentido algo parecido antes, no entanto nada lhe parava no estômago. Aqueles que já haviam passado pelo que ela estava passando, ou próximo disso – porque as coisas nunca são exatamente iguais, a despeito do que pensam alguns pais autoritários ou alguns casados de longa data -, lhe disseram que isso era normal; “É assim mesmo”, diziam. Ela não queria acreditar, esperava que passasse, como um resfriado ou um amor jurado eterno.
Um relógio de rua mostrava a temperatura: vinte e dois graus, mas ela sentia como se estivesse muito mais frio; tremia. Esperou por um momento e lá estava: três da manhã! A fome persiste, ainda mais intensa, mas ela não tem mais coragem de tentar ingerir qualquer coisa. Mais um pouco e a alvorada! E enfim talvez o sono. Ao menos tinha sido assim nos dois dias anteriores em que se negou a dormir durante o dia, pois tinha medo que se o fizesse, se começasse com esses hábitos, sua vida realmente nunca mais seria a mesma. “talvez se eu não ceder, talvez enquanto tiver esperança”, pensava. Mas nesse ponto, já era tarde demais, e no fundo de seu coração ela sabia disso.
Uma loja de conveniência 24 horas, na esquina de sua antiga casa, longe de onde seria obrigada a morar. Devia ter andado quilômetros até parar ali, no entanto não se sentia cansada. Entrou por um pacote de cigarros. Não fumava; nem sequer queria fumar. Pediu o maço ao atendente, mas o fez sem educação. Provocava o homem, com suas palavras primeiro e depois com seu corpo. Devia estar enlouquecendo, mas se achou sexy, e até o próprio fato de poder estar ficando maluca deixava a tudo mais excitante. Procurava ao mesmo tempo por uma boa transa ou um bom soco da cara – um bom tapa que fosse, se aquele homem não tivesse coragem de lhe bater como merecia – era uma disputa entre sua boca pecaminosa e seu corpo buscando pelo pecado. No entanto ambos queriam a mesma coisa, a coisa que lhe fez entrar pelos cigarros: queria se sentir viva!
Puxou um cigarro do maço sem sequer ter pagado por ele, colocou na boca e a estendeu para que o atendente o acendesse. Não conseguiu nem a transa nem os socos, esperava ao menos esse fogo. Talvez estivesse mesmo morta, ou talvez fosse realmente demais esperar que o homem acendesse seu cigarro depois do que dissera ou de quase ter se despido e atirado sobre ele ali mesmo. Não sabia ao certo, mas não acreditava estar morta. Não podia acreditar nisso! Sentia frio e sentia fome.
E alguma coisa dentro dela sabia que apesar de não ter correspondido aos apelos de sua boca ou satisfeito os de seu corpo, essa última ele poderia resolver. Olhou novamente para o homem: um olhar esguio. Retirou o cigarro ainda apagado da boca e pensou até escutar a mente do sujeito dizendo: “lá vem ela de novo! O que será dessa vez? Acho que vou ter que dar um jeito nessa mulher mesmo!
Ela sorriu com desdém, mas algo em seu íntimo já havia sorrido antes. Se ele quis dizer “alguns bons socos” ou “uma boa transa” com aquele “dar um jeito” isso já não fazia diferença alguma: já era tarde demais.
Sentada ao lado do corpo inerte do plantonista já sem sangue algum no corpo ela sentiu algumas lágrimas lhe descerem o rosto, mas até para elas o tempo havia se esgotado; levavam embora seus últimos e insistentes traços de humanidade, que já não insistiam mais. Já não sentia mais fome. Tirou o isqueiro do bolso do homem morto e acendeu o cigarro. Sua boca ainda ligeiramente trêmula e vermelha sujou-lhe a ponta – lhe pareceu como batom. Com algum esforço deu a primeira tragada de sua vida. Sentiu a fumaça quente descer-lhe a garganta até os pulmões. Demorou um pouco, como se esperasse que preenchesse o enorme vazio de seu interior, e a soltou. Não havia surtido efeito. Era óbvio. Riu de sua própria ingenuidade. Nada, em tempo algum preencheria aquele vazio… “Mas ao menos não preciso me preocupar com a fumaça ou o cigarro”, pensou, “vampiros não morrem de males causados pelo tabagismo!”.
Longe dali, longe de tudo que conheceu, de sua vida e seu passado, ela dormiu um sono pesado quando o amanhecer chegou.
Fevereiro 16, 2008 às 6:25 pm
A angústia da vampira, sua sina inexorável, a eternidade de seu ato incontrolável e o “aggiornamento” de sua presença numa loja de conveniência. Gostei muito, Marcelo.