Ele chamou o garçom até sua mesa com um aceno. O sujeito sorridente chegou rápido.
– O que vai ser hoje, senhor – disse ele.
– Me faz um favor?
– Claro senhor. Estamos aqui para isso! – parafraseou.
– O drink da casa para aquela moça ali. – apontou.
– Um V8 para aquela chinesinha ali? – confirmou prestativo.
– Perfeito! Com fogo e tudo.
– Claro, senhor, mais alguma coisa?
– Ficaria ruim se eu pedisse um também?
– Eu acho que não, senhor? Um V8 para o senhor também?
– Sim, por favor.
– Claro, meu capitão, está saindo! – sorriu com certo desdém que ele notou, mas preferiu não tecer comentário. Precisava ainda do tal favor. – Ela é a mais bonita da noite, sem dúvida. Se eu fosse o senhor chegaria beijando, sabe? Hoje em dia mulher não quer muito papo não! Acha que cê é lerdo ou até viado se falar demais…
– Certo, vou pensar nisso! Enquanto isso me traz os drinks.
– Podexá! Mal não vai fazer, né? – brincou com uma piscadela.
– Pois é. – ele piscou de volta já se sentindo esgotado.
Ele olhou ao redor, não conhecia ninguém, mas ao mesmo tempo pareciam os mesmos rostos de sempre. O casal à sua frente já não se amava mais e ele soube disso com poucos minutos, é impossível que ambos não percebessem se ficassem mais que esse tempo próximos um do outro. Ou então é a tal da conveniência. Ele se perguntava: “a quem isso haveria de ser conveniente?”. Ao lado dois amigos conversavam. O mesmo papo que ele mesmo já pensara em gravar para os dias que não quisesse nem gastar saliva. Apostava que ninguém sequer perceberia.
Mais uma música iria se iniciar: Walk of Life. Ele reconheceu logo pelos primeiros acordes. Outra que, sem dúvida, poderia gravar, mas nesse caso alguém já havia feito isso antes dele; mais especificamente o Dire Straits. Do outro lado estava o sujeito sorridente com as duas bebidas sobre a bandeja flamejante. “Ao menos chama a atenção, sem dúvida!”, pensou e também sorriu. Até que foi rápido mesmo. Iria se lembrar do fato na hora de deixar a gorjeta, mas esperava que esquecesse. Não esqueceu.
O garçom entregou a bebida, o V8 – receita secreta da casa, guardada a sete chaves… ou algumas notas de cinqüenta. Havia chegado a hora. Podia até ler nos lábios do homem: “esse é por conta daquele senhor ali”. Achou engraçado. Não o fato da frase padrão, mas o de ter sido chamado de senhor. Quando o sujeito se referiu a ele anteriormente não havia se importado porque imaginara ser de tom respeitoso – por sinal deslocado completamente do ambiente informal do bar onde estava – mas ouvindo agora (ou quase) não conseguiu deixar de achar estranho, afinal não tinha chegado sequer à casa dos trinta. Rapaz, pensou, teria sido uma opção melhor. Mas isso tudo não importava, precisava aproveitar o momento e dar seu melhor sorriso, levantar o copo como num brinde à distância, aquela coisa toda.
Ela aceitara. Também, quem recusaria? O drink além de bonito era muito gostoso. Poderia ser um pouco mais forte, sem dúvida, mas quem se atreveria a mudar um miligrama da receita ultra-secreta? Esse pensamento o fez sorrir com mais facilidade. Temeu que houvesse sido demais, mas não foi. No mínimo ela pensaria: “que palhaço!”.
Por outro lado, ao menos assim saberia o que ela pensara. Estava com as amigas umas duas mesas para o lado, é sempre uma situação complicada.
Bem, o primeiro passo havia sido dado, agora era só continuar andando: keep walking. Esperou pelos primeiros goles e pelos últimos e caminhou até lá.
– Oi, se apresentou. Você sabe por que colocam fogo nesse drink?
– Não!
– Pois é, e aposto que eles também não vão querer falar… – fez uma cara de ultraje. – Mas é gostoso mesmo assim, não é?
Ela riu. Ponto! As amigas acompanharam. Ponto! Mas não todas… Bem, não importava, a tal sem-humor era feia e ele acrescentou mentalmente (provavelmente mal-amada).
Esperou por um convite para sentar. Não houve nenhum.
– Eu tenho um palpite… – emendou antes que fosse tarde demais. Dessa fez teriam de convidá-lo a sentar se quisessem matar a curiosidade. Saber atiçar a curiosidade de uma mulher era um dom que todo o homem deveria aprender a cultivar.
– Ah é? – a menina perguntou. A tal feia. Mal amada e curiosa.
Ele se sentou. Apenas com um movimento de corpo para confirmar se podia realmente. Já não tinha dúvidas, era só questão de educação. Abaixou-se um pouco, aproximando a cabeça da mesa como se contasse um segredo.
– Por que ele é mais gostoso quente! É uma jogada de marketing!
Deus abençoe a bebida e o álcool: elas riram de novo!
– Olha só – disse uma delas um pouco depois – você é muito engraçado e eu não queria te desanimar, mas ela não vai ficar com ninguém hoje.
– E quem disse que eu quero ficar? Eu sou um rapaz sério! Quero namorar, casar, ter três filhos com nomes muito legais, que demoraremos meses para escolher mas que em semanas transformaremos em diminutivos, um cachorro para eu poder reclamar com ele das coisas que os cachorros fazem porque afinal são cachorros e envelhecer o suficiente para achar divertido jogar dominó – quem sabe ser campeão do clube da terceira idade, ou amigos do bairro…
– Ah há! – riu uma outra garota, loura com os olhos castanhos mel – é sério, a Kaori terminou o namoro de seis anos pouco tempo atrás…
– Isso é verdade? – ele perguntou a menina que agora sabia o nome.
– É sim – ela respondeu.
Não houve complemento na frase. Isso foi tudo. Se ele guardara uma carta debaixo da manga essa era uma excelente hora para usá-la.
– Tudo bem. Então façamos o seguinte – disse. – Eu sou um cara competitivo, você é competitiva?
– Sou!
– Pois eu sou muito mais competitivo que você! Quer competir?
Ela sorriu. Mas não demonstrou abertura nenhuma.
– Façamos o seguinte. Vamos apostar alguma coisa. Bem, eu aposto que consigo te beijar sem tocar os seus lábios!
Está certo, estava longe, bem longe mesmo, de ser original, mas com relação à carta na manga: ele não tinha nenhuma carta na manga.
– Vamos apostar vinte reais. Se eu perder, pelo menos te ajudo a ficar bêbada mais rápido, o que acha?
Todos os olhos que haviam convergido para ele agora miravam os olhos puxados de Kaori. Ele só tinha uma chance, muito pequena, de que nenhuma delas tivesse um dia apostado uma coisa dessas com ninguém antes. E foi então a vez da sorte lhe sorrir.
“Se você quer rir tem que fazer rir”, lembrou.