Rosas de Inverno

Ele se sentou à cabeceira, não que fizesse questão, pelo contrário, sequer queria uma mesa com cabeceira, mas assim como a cortina florida (com petúnias) e o papel de parede de seu quarto, fora idéia de sua mulher – para manter um nível inconsciente de hierarquia, é importante para as crianças. Quem mandou casar com uma psicóloga? Serviu-se de duas fatias de pão integral sete grãos, e uma generosa porção de geléia de morango, para equilibrar. Seu filho mais velho logo desceria também para tomar o café-da-manhã – a menor tinha apenas cinco anos e ainda estudava de tarde.
Alguns poucos minutos depois, enquanto terminava seu sanduíche e começava a se servir do café fraco demais de sua mulher, escutou os passos apressados na escada de madeira que indicavam que Claudinho estava descendo.
- Bom dia, meu velho! – disse o menino sorridente.
- Está alegre hoje, filho…
O menino não respondeu nem continuou a conversa, sentou-se também sem prestar mais atenção no pai e serviu-se de cereais de milho, leite e…
- Não tem fruta, pai?
- O que é Claudinho? – respondeu abaixando sua caneca que estava a meio-caminho da boca.
- Morangos, banana… “Fruta”!
Ele pensou em retrucar dizendo que sabia o que era uma fruta, só não havia escutado direito, ou melhor, até tinha escutado, mas questionou como às vezes fazemos: para dar algum tempo de pensar na resposta, no entanto não se sentiu motivado pra tanto.
- Acho que sua mãe trouxe maçã e pêra, devem estar na geladeira…
- Para evitar aqueles mosquitinhos chatos, né? – Cláudio imitou a mãe.
- Pois é, creio que sim, mas vão ficar pretas, então é bom comê-las rápido – disse pensando que não teria jeito de qualquer forma, “ninguém é tão rápido assim”.
- Pêra e maçã não têm nada a ver com Sucrilhos – escutou o filho reclamar, mas já tinha levantado novamente a caneca de café e dessa vez nada o iria impedir de beber aquilo enquanto ainda estivesse quente (ou o mais próximo disso que poderia estar).
- Concordo – disse enquanto sorvia o líquido já gelado.
Foi então a vez de Cláudio pensar em reclamar, mas parou no meio da fala. Depois diria direto pra mãe.
Para dizer a verdade, as manhãs eram quase sempre assim, e as tardes e noites seguiam na mesma toada. Bianca, sua mulher, saía de manhã para o escritório próximo aos Jardins – antes que todos resolvam querer sair e eu resolva querer voltar, dizia ela, e sempre que lembrava disso, Ricardo Prado (sim, esse era seu nome, mas era mais conhecido como Richard ou, Ri, ou “meu velho”) pensava que era o mais próximo que sua mulher poderia chegar de uma boa piada já havia algum tempo –, dava um beijo em seu rosto ainda na cama e deixava o café pronto. Claudinho descia e reclamava de alguma coisa sem perder o bom-humor usual, com seu uniforme do colégio e o sorriso ingênuo no rosto e logo depois do menino sair ele subia para acordar Bruninha, sua filha menor, antes de ele próprio sair para o trabalho. Era arquiteto civil e trabalhava numa empresa de médio porte próxima ao Brooklin, não muito longe da sua casa, mas infelizmente suficiente para precisar usar o carro: um Fiesta Sedan, prata, já com cinco anos a mais do que ele gostaria que tivesse.
Nada disso o incomodava, não mais, a não ser aquilo; aquilo de seus filhos – pois não era só Claudinho, Bruna também – de parecer nem sequer perderem tempo reclamando com ele de alguma coisa, preferiam “falar direto com a mãe”. Toda vez era como se uma pequena agulha cuidadosamente colocada num lugar que doa, próximo ao peito, fosse um pouco empurrada mais para dentro, só pra lembrá-lo que está ali e que, convenhamos, não vai sair dali.
- Velho?!
Ricardo não respondeu.
- O que foi, meu velho? – repetiu Cláudio enquanto terminava seu cereal. – Pai?!
Foi só então que ele escutou e voltou de seus devaneios.
- O que foi, filho? Precisa de alguma coisa? Não vai se atrasar, não é?
- Não, meu velho – respondeu o menino, tomando um gole de suco de laranja de caixinha (pelo menos isso Ricardo conseguira convencer a mulher que seria melhor do que ter de espremer frutas todas as manhãs para que tivessem o suco 100% natural, pensava na coisa com um orgulho débil).
- Bom! Isso é bom. Eu também não posso vacilar, já já tenho que subir e acordar sua irmã.
- A Bruninha já ta de pé eu acho, vi o som da TV ligada no quarto dela quando passei – retorquiu o menino sorridente.
- Hum… – Ricardo tinha um ar ponderado e sem ânimo – de qualquer modo, vou lá conferir assim que você for pra escolinha.
- Escolhinha?! – perturbou-se o garoto. – Já estou na sexta série! Ano que vem vou pra sétima.
Assim esperamos, pensou Ricardo, mas não disse.
- Ah, é mesmo, desculpe… – falou com a voz baixa – já está um garotão, hein?
Cláudio tentou detectar qualquer resquício de sarcasmo ou ironia na fala do pai, mas não pôde. Não havia. E então deu um sorriso ainda maior e se animou ainda mais.
- Você sabe o que vou ser quando crescer ainda mais?
- Um velho como o seu pai, se Deus quiser!
- Não! – aborreceu-se o menino – Não to falando disso!
- Eu sei – ele explicou – só estou brincando.
Cláudio não riu. Mas logo se animou novamente e continuou contando enquanto terminava o suco e já arrumava as coisas pra deixar a mesa.
- Vou ser músico e artista de cinema, como a Norah Jones ou o Bob Dylan!
Ricardo ficou quieto. Ao ouvir seu filho dizendo aquelas palavras alguma coisa doeu dentro dele e não tinha nada a ver com aquela agulha ou qualquer outra dessa vez, era alguma outra coisa.
Ao ver que o pai apenas o olhava, Claudinho continuou sem perder o ânimo, gostava quando lhe prestavam atenção.
- Estou treinando com o violão todos os dias – é verdade, estava mesmo, e todos na casa esperavam que ele aprendesse rápido e achavam uma boa idéia “da mãe” ter comprado um violão ao invés de uma guitarra – e já toco Stairway to Heaven quase até o final, tirando aquele solinho besta do meio, e já falei com o Paulinho, aquele amigo meu lá do time que também toca, porque o pai dele é produtor de vídeo e o Paulinho disse que pode me dar uma força com a minha carreira. Aí faço alguns clipes e tals, sei que o começo é difícil, li em várias revistas o pessoal das bandas famosas falando… Sabia que o Metallica antes da fama teve que pedir uma torradeira ao pessoal do Anthrax, porque tavam duros como pedra?… Mas depois, se começar a dar certo é só seguir e estar sempre na mídia, fazer falarem de você, sabe? E como já vou ter feito alguns videoclipes, depois a minha carreira de ator vai ficar mais fácil também, não acha?
A coisa toda parecia estar muito certa na cabeça do menino, Ricardo pensou, no mínimo já tinha feito esse discurso para os amigos – e a mãe –, várias e várias vezes, sempre acrescentando um ponto importantíssimo de como conseguiria alcançar tudo isso de maneira certa, e apesar de difícil no começo, simples.
- Eu também já tive sonhos, filho – ele diz, quase que deixando as palavras escaparem sem nem sequer um sorriso amarelo para acompanhar.
Claudio levanta e coloca os pratos e copos na pia como o pai o havia ensinado a fazer. Escova os dentes rapidamente no lavabo anexo convenientemente à cozinha e despede-se com um Tchau já perto da porta que fecha atrás de si depois de sair para pegar a perua. Vai pra escola sem entender muito bem o que o pai quis dizer.
Ricardo termina seu café-da-manhã sem pensar em mais nada ou trocar qualquer palavra com ninguém, sobe e chama a filha que reclamou do tempo e que não teria “parquinho” na escola naquele dia. Desce novamente e lava a louça deixada por ele, o filho e a mulher antes de sair. Prepara rapidamente um lanche e um copo de café-com-leite para Bruninha e deixa sobre a mesa à espera da menina.
Antes de sair desce mais um lance de escadas até o que seria o porão, mas que na verdade era só um espaço da casa que destinaram para jogar as coisas que não usavam com freqüência ou que haviam se apegado demais para simplesmente jogarem fora. Se aproxima de um armário antigo de madeira escura e já bastante comida por cupins que nunca foram achados – talvez tenha sido o tempo mesmo – e abre a primeira gaveta fechada a chave. Um cheiro de velho chega às suas narinas, mas ele não parece se importar. Lá dentro uma pilha de folhas escritas à máquina e ligeiramente amareladas descansa um longo sono. Na primeira delas, logo em cima, podia ler um título: “Rosas de Inverno”, e logo abaixo, em itálico “um romance de Ricardo A. Prado”. Passou-se alguns momentos em que ambos, folhas e Ricardo, pareceram um só, imóveis e olhando um ao outro até que ele fechou a gaveta com força e trancou novamente, dando duas voltas na chave.
Ainda podia ouvir o estrondo seco da gaveta se fechando enquanto subia a escada outra vez e caminhava alguns passos até a mesa onde repousava sua valise preta de fecho dourado, bem parecida com a que seu próprio pai usava quando era vivo. Pegou-a e também o canudo com os projetos que levara para terminar em casa, no dia anterior. Deu uma última olhada para a casa silenciosa, e o lanche ainda à espera da filha sobre a mesa, ajeitou um pouco os cabelos no pequeno espelho próximo à porta e saiu.

Uma resposta para “Rosas de Inverno”

  1. Olá!

    A LivroPronto Editora convida você, autor, para uma conversa sobre a publicação de sua obra.

    Escreva para nós!
    gabriela@livropronto.com.br

    Um grande abraço!

Leave a Reply