Cem Mortes (parte I)
Ele caminhava assustado entre as ruas seis e sete. Olhava cada uma daquelas pessoas nas fotos pelo caminho. Não que as conhecesse. Não que se lembrasse. Na verdade, não se lembrava ao certo do motivo que o levara até ali, até aquele lugar escuro, sombrio, em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Já era noite e o frio aumentara, fazendo com que ele levasse as mãos aos ombros; os braços à frente do corpo, numa espécie de abraço em si mesmo. Havia algo lhe cobrindo o corpo por cima da camiseta, uma espécie de jaqueta, mas ele não se lembrava de tê-la colocado, ou quando. Possuía só uma vaga lembrança. E era bom estar protegido, digamos que aquilo fora providencial, então ele não ligou para o fato. Não naquele momento.
O cheiro das flores também era forte. Não que ele não gostasse do cheiro de flores, mas algo naquele lugar estava começando a fazer com que ele passasse a não gostar.
– Sente o cheiro as flores, John? Ele não lhe agrada mais? – o homem pareceu ouvir.
Poderia até achar que se tratava de sua própria consciência. Mas, a não ser que tenha voltado muito no tempo, ou acreditasse nisso, estaria certamente se enganando, tomando o caminho mais rápido para a resolução mesmo que não fosse o certo e ele soubesse disso – não teria sido a primeira vez. Em suma, teria de acreditar que a voz da sua consciência voltara a falar como um menino de dez anos de idade.
Mas o problema não era esse…
– Que… Quem está ai? – ele indagou em voz alta, gaguejando e girando nos calcanhares.
“Que idiota!”. Agora sim era aquela voz conhecida, a voz da sua consciência, reprimindo-o como de costume; e como quase sempre, com razão.
O problema era que havia ninguém, senão ele, ali.
O problema era que, na verdade, ele parecia conhecer a voz que lhe falou.
O problema era que parecia ser a voz de seu filho.
O problema era que seu filho morrera havia sete anos. Ou seriam sete meses? Sete dias? O tempo é engraçado, não é mesmo?
O problema era que não conseguia se lembrar ao certo. Talvez não quisesse.
O problema é que há coisas que a gente nunca esquece.
* * *
Voltou a caminhar. Na verdade havia voltado a caminhar. Dessa vez, adentrara ma das ruas, mas quando ou qual rua ele não saberia afirmar ao certo. Fez sem olhar. Se tivesse olhado entraria na rua sete. Se tivesse se lembrado.
Algumas folhas passeavam com o vento, enegrecidas pela noite escura; escura como ficavam suas vestes naquela noite; naquela noite escura, naquele lugar escuro. Vez ou outra lhe chamavam a atenção e ele desviava o olhar; quando retornava só faltava xingar a si próprio de estúpido (no mínimo), já que não conseguia responder sequer uma simples pergunta que lhe acometia a cada vez: “qual foi a última vez que olhei mesmo?”. Contudo, foi em uma dessas vezes, dessas que olhava para o lado – ou para trás, ou para baixo – na qual sua visão periférica encontrou algo mais. Algo imprevisto, uma sombra talvez, cuja sua primeira reação foi negar piamente.
Seria essa sombra a de seu filho? Do mesmo filho que acreditava ter ouvido a voz? Bem, poderia ser, mas somente se seu filho tivesse crescido uns sessenta centímetros. Só se seu filho tivesse adquirido a estatura de um jovem de aproximadamente vinte anos. E, só se seu filho estivesse vivo para poder fazer isso; se não estivesse morto.
Um calafrio. Acreditou que seu coração iria disparar, acelerar subitamente. Até seria compreensível se o fizesse. Entretanto, não o fez, o que era mais difícil de compreender. Por outro lado, isso queria dizer que ele estava bem, não? Que nada daquilo tinha de fato lhe afetado… sequer ocorrido, não é? E o fato de ele não conseguir parar de olhar para o lado ou para trás mesmo sem o movimento das folhas ou do vento para lhe chamarem a atenção, também era nada. Nada demais. Só – vamos dizer – estava olhando por precaução, certo? (tudo bem para você?)
A coisa era mais ou menos assim: John voltara outra vez a caminhar, mas deixara de olhar as fotos; já não ligava – muito – para isso ou para o cheiro das flores, ou até para o modo que aquelas estátuas se moviam, moviam seus olhos e o observavam. Bem, para ele pareciam estar observando. Dava alguns passos – dois ou três; com coragem quatro – seus pés esmagando alguns pedregulhos e o som às vezes lhe provocando, lhe enchendo a mente. Então acelerava, quase chegando a correr; subitamente parava e olhava para trás ou para o lado, só para ver que havia ninguém lá. E havia sempre ninguém.
Olhou novamente uma fotografia, pregada numa pedra, numa estrutura de pedra, e a olhou casualmente.
Meu Deus! Era impossível que não houvesse percebido antes. E também era impossível que sua mente houvesse lhe pregado uma peça tão grande durante tanto tempo. Como também era impossível que tudo aquilo fosse real. No entanto, estava vendo com seus próprios olhos…
Não havia rostos naquelas fotos. Por isso não encontrara quem estava procurando. Ele estava procurando alguém? Não! Ao menos, achava que não. Não se lembrava. O que estava fazendo ali?
Correu. Sua cabeça ia de um lado para o outro sem parar, mas seu pescoço não doía, seu cérebro estranhamente não acusava dor. Estava certo. Sombriamente certo. Não havia rastros. Não havia Lua nos céus, apenas nuvens carregadas. Algumas poucas luzes lusco-fuscas naquele lugar escuro, naquela noite escura. E não havia por quê. Aparentemente não havia por que, como aparentemente não havia dor. Embora ele pudesse afirmar com certeza que não havia. Que estava certo. Sombriamente certo.
Nossa! – de repente muitas coisas lhe vieram à mente e ficaram claras, ou talvez horrendamente mais escuras, sombrias. E vieram em formas de perguntas. O que aconteceu? Que blusa é essa? Uma jaqueta? Ele não se lembrava de ter comprado uma. De fato, não se lembrava sequer quando foi que a vestiu e por quê. A última coisa que se lembrava era de estar parado em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Começou a entrar em pânico. Se é que já não havia entrado em pânico antes. Será? Não se lembrava ao certo. Tirou rapidamente, desajeitado, a jaqueta – como se sentisse nojo dela. Na verdade sentia, só não se lembrava por quê. Jogou-a no chão em algum lugar naquele lugar escuro, no chão de pedregulhos, e na mesma hora o vento que antes apenas brincava com as folhas, brincava com ele, passou a congelá-lo, e ele levou os braços para junto ao corpo, apertando, numa espécie de abraço em si próprio.
Talvez achasse estranho não lembrar quando os removera dali; mas isso só se se recordasse de já tê-los levado ao corpo antes.
Estava perdido, talvez como estivera toda a noite. Talvez não.
Seu corpo tremia, e não era de frio. Algumas lágrimas que lhe escapavam dos olhos confirmavam isso. Estava realmente assustado – para ele, abruptamente assustado, e sem motivo –, estava com medo. Mas nunca teve medo de ficar sozinho, mesmo antes de dormir quando era pequeno. Sua mãe sempre lhe dizia: “que menino corajoso!”. Tampouco tinha medo do escuro. O que ele temia era o fato de talvez não estar realmente sozinho.
continua…