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Alice – Tom Waits

Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , , em Fevereiro 12, 2008 por yohankoh

Alice – Tom Waits

It’s dreamy weather we’re on
You waved your crooked wand
Along an icy pond with a frozen moon
A murder of silhouette crows I saw
And the tears on my face
And the skates on the pond
They spell AliceI disappear in your name
But you must wait for me
Somewhere across the sea
There’s a wreck of a ship
Your hair is like meadow grass on the tide
And the raindrops on my window
And the ice in my drink
Baby all I can think of is AliceArithmetic arithmetock
Turn the hands back on the clock
How does the ocean rock the boat?
How did the razor find my throat?
The only strings that hold me here
Are tangled up around the pierAnd so a secret kiss
Brings madness with the bliss
And I will think of this
When I’m dead in my grave
Set me adrift and I’m lost over there
And I must be insane
To go skating on your name
And by tracing it twice
I fell through the ice
Of AliceAnd so a secret kiss
Brings madness with the bliss
And I will think of this
When I’m dead in my grave
Set me adrift and I’m lost over there
And I must be insane
To go skating on your name
And by tracing it twice
I fell through the ice
Of Alice
  Alice – Tom Waits
Tradução: Julio Moraes
É tempo de sonhos, este o nosso.
Você brinca com um galho qualquer…
Num lago congelado sob a lua fria,
Como a sombra de corvos algozes,
De meus olhos, eu via
Lágrimas caírem velozes.
E os meninos patinando,
Desenhavam o nome de Alice.
Desaparecerei em teu nome,
Mas talvez você deva me esperar,
Em algum lugar, no meio do mar,
Vejo um navio que some.
Ah! Seu cabelo, como um verde sereno
Que ondula pela maré,
A chuva sobre a janela, no sopé,
Ou ainda o gelo que derrete meu veneno.
Caralho, só penso em Alice!Eterno tique-taque, eterno ócio,
Não tiro os olhos do ponteiro;
O mar agita o barco sem propósito,
E o corte da navalha é tão certeiro!
Só um fio ainda me prende nessa bosta,
Vagar naquele porto, na costa.
De repente, um beijo secreto:
Êxtase e paixão.
Vou ficar pensando nisso, estou certo
Quando estiver enterrado dentro do caixão.
Mas devo estar pirando!
Quando ponho os patins e ando
Naquele nome que escreveram no gelo,
Duas vezes ainda, querendo tê-lo.
Mas temo cair sozinho no frio
De Alice…

NO TEMPO DE BORGES

Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , , em Dezembro 19, 2007 por yohankoh

Ainda que em poucas palavras
Ainda que em dias tão breves
Sonhar esse sonho de casas
Sonhar como o conto dum cego
Ainda que infante no sono
Sonhar com pilastras sublimes
Sonhar com a doce coleta
Saber-se habitado no tempo
Da longa corrente incompleta.

Jesusalém

Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , , em Novembro 13, 2007 por yohankoh
Para desespero dos céticos,

Deus,

além do quartzo

e das orquídeas,

também criou a gravidade.

JERUSALÉM

Certa vez o Rei Davi adormeceu e pela noite alongada da terra dos filhos de Israel, sete anjos bons do Senhor desceram e lhe contaram de um mundo que seria seu. Descreveram-lhe que este mundo todas as coisas estavam sujeitas a cruéis leis de Javé. Disseram-lhe que nesta terra, não apenas os objetos, os animais e as pessoas pregavam-se ao chão, mas também que a água despencava pela manhã, o sol pela tarde e os cometas pela noite. Também os continentes mantinham-se rijos. Os mares ficavam indefesos. As ilhas pregavam-se ao solo sem conseguir abrir suas asas e alcançar as campinas de Javé.
Contaram-lhe, os sete anjos bons do Senhor, que apenas os pássaros e os loucos conseguiam fugir desta cruel lei, mas que também eles deviam retornar e o próprio mundo se pregava a outros mundos, que Davi se pregava a todos os corpos vivos sob o sol de Javé, que Jerusalém se pregava à outra Jerusalém.

Certa vez o Rei Davi adormeceu e pela noite alongada da terra dos filhos de Israel, sete anjos bons do Senhor desceram e lhe contaram de um mundo que seria seu. Descreveram-lhe que este mundo tudo se sujeitava ao vento. E que as colheitas, os arados e os livros eram esquecidos com o passar das luas. Que não apenas as palavras de Javé, mas os rostos dos filhos, o amor das esposas, a visão das montanhas de Gabaon, tudo se queimava como um filtro e que sob o sol de Javé os homens esqueceriam e tornariam a esquecer. Contaram-lhe os anjos que apenas os pássaros e os loucos conseguiam fugir desta cruel lei, mas que também eles esqueceriam um dia e se esqueceriam uns dos outros, que Davi se esqueceria de todos os corpos vivos sob o sol de Javé, mas que Jerusalém não se esqueceria, pois seu nome era Javé.

Quando acordou, Davi se lembrou que era rei num sonho criado por Javé.
Quando acordou, Davi se lembrou que era rei do mundo criado por Javé.

A MORTE DO CONDE NEUBLATTEN

Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags , , em Novembro 5, 2007 por yohankoh

A MORTE DO CONDE NEUBLATTEN

Todas as grandes nações do globo sempre guardam com carinho um punhado de figuras heróicas. São guerreiros valorosos, homens de honra e grandes monarcas. Isto todos o sabem. Não digo tais coisas apenas de nós, europeus, que dentre tantos grandes homens já tivemos os imperadores romanos, a dinastia dos carolíngios ou os santos de todas as nações, também dos hindus com seus sábios, dos árabes com Saladino e dos orientais com Genghis Khan, sem contar, é claro, a situação dos povos do novo mundo.

Aqui na Prússia, de nossos presentes dias, vivemos sob a chama viva e a fáustica bandeira de nosso monarca Frederico II, imperador da Grande Águia, amparado de ambos os lados por um respeitável batalhão de generais, nobres de alto escalão e grandes sábios. A mim, por outro lado, tais nobres não se igualam a outra de que lhes contarei em breve; tenho meus próprios gostos e minhas próprias preferências e, preciso afirmar, figura pública alguma supera em respeito e em estimas as que nutro pelo Conde Neublatten. Não que o conde seja o melhor dos duelistas, como Plfieger, ou um grande cavaleiro como Hagelstrom, ou ainda Meyerhold, com a lira de seus versos… Também em beleza e em cortesia existem rivais a sua altura mas, ainda assim, digo-lhes que Neublatten é o maior de todos… Maior surpresa ainda lhes causaria se lhes dissesse que o conde, que tantas estimas está recebendo de mim, na verdade, não existe.

Sim, sim, entendo vossa indignação ante tal absurdo, mas façamos as devidas explicações. Com tal fim, contarei os caminhos pelos quais eu, inicialmente um humilde cobrador de impostos, inteirei-me sobre a existência – e a inexistência – do Conde de Neublatten, sobre sua vida, seus feitos e, mais importante de tudo, sobre sua trágica (e inexistente) partida desse mundo.

Tomei conhecimento de Neublatten em meus primeiros meses de ofício, quando fui incumbido da inspeção de coletas tributárias sobre o arenque transportado do Báltico. Apesar da relativa tranquilidade daqueles primeiros dias, alertavam-me os colegas que não descuidasse de Neublatten, que diziam ser como um “grande vigia” da burocracia dos portos, atento aos mínimos detalhes e às mínimas transações dos funcionários. Decorreram-se alguns meses sem incidentes, mas em maio, o atraso de uma traineira lituana me obrigou a segurar certos dados que constariam num relatório. Foi a primeira aparição de Neublatten em minha vida: tal irregularidade não havia passado desapercebida por seus olhos, e, logo no dia seguinte, recebi uma carta de timbre maravilhoso: um cavalo negro e, ao fundo, um castelo. Sua caligrafia era impecável, meticulosa, trabalhada. Em poucas palavras, alertava-me do ocorrido passando-me, por ora, uma simples advertência.

Deixei de dar importância à tal carta já algumas semanas depois: os bons comércios com os navios holandeses passou a tomar boa parte de meus dias, e, na primavera, quando o Báltico se reanimava de comerciantes, fizemos bons contratos que renderam excelentes divisas, com o arenque, a lenha e o sal. Naqueles dias, as necessidades deadquirir material e mais madeira nos obrigaram a entrar em contato direto com os holandeses, feito através de um meirinho de grande discrição. O plano articulou-se de maneira sublimemente discreta, para que Neublatten não tomasse ciência das transações, teoricamente proibidas. Mas o conde era por demais inteligente: uma vez mais nos surpreendeu, desta vez adiantando-se às nossas medidas. Comunicou não a nós, mas aos próprios holandeses o fato, indicando que tinha contatos não apenas na burocracia dos portos, mas também nos outros países. De Kronenberg e Postdam chegavam relatos de interveções semelhantes, todas repletas de seu formalismo e muito bem redigidas, timbradas com a insígnia de seu cavalo e seu castelo. Após a intervenção do trigo em 17–, sucederam-se as do sal, do cobre, do arenque (novamente feita junto aos holandeses), do gado, dos tecidos de Flandres, do açucar brasileiro, a dos mármores e, por fim, das louças. Também relatos de contatos e postos avançados em Roterdã, Londres, Bruxelas e, diziam alguns, nas Antilhas e em Georgetown.

Foi por volta do ano seguinte que se iniciam as desconfianças a respeito de Neublatten e seu incrível poder de se antecipar a todos os demais (eram poucos, contudo, os que afirmavam a tese que mais tarde se tornaria a dominante, a de que o conde jamais existiu). A diminuição de suas sanções, certo abrandamento das multas e até mesmo um enfraquecimento percebido na maneira da caligrafia sugeriam que Neublatten vinha se enfraquecendo, talvez estivesse até enfermo. Por algum tempo, é bem verdade, a torrente de impostos, coletas e débitos ressurgiu com grande ímpeto, mostrando que a situação havia se normalizado. No ano seguinte, contudo, surgiram as primeiras acusações da inexistência do conde: um escrivão da Silésia afirmava ter visto um superior seu assinando um édito agrícola usando um selo “de cavalo e castelo negros”. Acusações semelhantes espalharam-se pelo país e, no outono, seguiam para o tribunal trinta e três escrivões e doze agentes, acusados de forjarem éditos em nome do Conde Neublatten. Em sua defesa, os chamados “trinta e três” alegavam que cumpriam ordens superiores. No final, foram absolvidos por falta de provas e porque parecia bastante inverossímil às autoridades que agentes e funcionários tão díspares – alguns eram da agricultura, outros do comércio, outros do fornecimento de armas e munições, outros do ministério de madeiras e florestas, extração de cal, suprimeiros alimentares e trigo além do ministério das ciências e tecnologia, assuntos religiosos, emissão de títulos, contratos de muralhas e fortalezas silésias, fornos de carvão vegetal e estradas e moinhos – estivessem todos envolvidos. A absolvição dos acusados foi, assim, assinada no verão de 17–, não sem grande repercursão nacional.

Foi só então que o Gabinete Real decidiu intervir na situação e, não se sabe exatamente por quais mecanismos, Neublatten oi transferido para um posto técnico da alfândega da Pomerânia, donde, afirmavam os periódicos, veio a morrer de causas naturais, embora o legista tenha desconfiado de certos “males reminscentes nos rins”. A descoberta de algumas cartas pessoais em suas posses elevavam como a infiltração do Conde Neublatten na burocracia prussiana havia sido ainda maior: soube-se, por exemplo, que a carta de absolvição dos “trinta e três” havia sido assinada por ninguém menos que ele, disfarçado sobre o nome de um certo “Comendador Alfonso de H.”, algo assim, (o nome já me falha a memória, mas que se tratava de uma espécie de anagrama de seu próprio nome de batismo, isso me lembro muito bem). Por fim, quando se achava que Neublatten havia morrido, sido enterrado e sepultado na Catedral de Kronenberg, novos documentos começaram a surgir em Dantzig, Ibermas e na Letônia. Muitos se diziam sucessores diretos da jurisprudência de Neublatten, emitindo títulos, leis, letras cambiais, éditos agrícolas e todas as outras parafernálias burocráticas. Pelas ruas de Dantzig, registravam-se de quinze a vinte novas empresas por mês, todas timbradas com insígnia real, sem dizer das casas de importação, dos armazéns e dos eventuais bêbados da capital que juravam serem amigos íntimos do conde. A paranóia e o caos causados por tal crise só cessou quando o Gabinete Real instaurou um “Comitê de Controle Caligráfico” de documentos. Coube a diversos técnicos e administradores (inclusive a minha pessoa, já então em idade um tanto quanto senil), a ler e identificar as eventuais fraudes.

Dessa maneira, oito nonos daquelas pretensões e falsos “condes” foram detectados e devidamente punidos. Se tratava, como se pode imaginar, de homens que queriam valer-se do mistério e do poder do timbre para obterem méritos próprios. Tal trabalho, se por um lado me anima, já que me deparo constatemente com cópias quase impecáveis e muito semelhantes à caligrafia de um homem que deveria estar morto, por outro me fatiga um pouco, pois sinto que os anos já estão pesando sobre mim. Sim… Em tais dias, o que mais quero é que baixe logo esta poeira, já que ainda tenho inúmeros projetos que pretendo realizar até o final de meus dias. Penso, por exemplo, em cultivar a arte da jardinagem ou quem sabe dedicar-me às belas artes… Talvez escreva mesmo um livro, em que conte às futuras gerações da gloriosa Prússia de Frederico II e de seus descendentes sobre as peripécias e astutices do Conde de Neublatten. É preciso que se esclareça à história a verdade a seu respeito. Julgo ridículas as versões correntes (tanto a oficial, que defende a morte de Neublatten nos campos da Pomerânia quanto aquela versão dos opositores que afirmam que o conde não passou de uma invenção do Gabinete Real e do próprio Frederico II para aumentar seu poder pelo país, sendo o nobre devidamente “assassinado” quando deixou de interessar ao governo). A verdade, e eu posso dizê-la melhor do que ninguém, é que o conde não está morto e, pelo contrário, segue em boa saúde, a despeito de certas “dores reminiscentes nos rins”.

Atualmente, encontra-se numa de suas várias propriedades, uma casa em Neufchateau que pouco lembra o castelo negro de suas insígnias. Já ele não tem mais idade para os cavalos ou as mulheres. Não poderei lhes dizer seus próximos passos, são planos incertos: nesta fase de sua vida, em que parece que já se conquistou todo o mundo, sente-se um certo esplendor e uma certa tranquilidade senis. De suas futuras pretensões, contudo, posso lhes confessar duas ou três: talvez o conde de Neublatten tencione dominar, ainda na primavera desse ano, a Casa da Moeda ou a Companhia de Exportação de Navios e Docas. Talvez seja a vez da Indústria Têxtil sucumbir ao seu mando ou ainda infiltrar-se para dentro do Supremo Tribunal Prussiano. Mas pode ser que suas ambições sejam um tanto quanto mais singelas: dedicar-se a jardinagem ou quem sabe às belas artes.

Neufchateau, 26 de outubro de 17–