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Cem Mortes (parte I)

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , , , , , em Junho 15, 2009 por yohankoh

Ele caminhava assustado entre as ruas seis e sete. Olhava cada uma daquelas pessoas nas fotos pelo caminho. Não que as conhecesse. Não que se lembrasse. Na verdade, não se lembrava ao certo do motivo que o levara até ali, até aquele lugar escuro, sombrio, em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Já era noite e o frio aumentara, fazendo com que ele levasse as mãos aos ombros; os braços à frente do corpo, numa espécie de abraço em si mesmo. Havia algo lhe cobrindo o corpo por cima da camiseta, uma espécie de jaqueta, mas ele não se lembrava de tê-la colocado, ou quando. Possuía só uma vaga lembrança. E era bom estar protegido, digamos que aquilo fora providencial, então ele não ligou para o fato. Não naquele momento.
O cheiro das flores também era forte. Não que ele não gostasse do cheiro de flores, mas algo naquele lugar estava começando a fazer com que ele passasse a não gostar.
– Sente o cheiro as flores, John? Ele não lhe agrada mais? – o homem pareceu ouvir.
Poderia até achar que se tratava de sua própria consciência. Mas, a não ser que tenha voltado muito no tempo, ou acreditasse nisso, estaria certamente se enganando, tomando o caminho mais rápido para a resolução mesmo que não fosse o certo e ele soubesse disso – não teria sido a primeira vez. Em suma, teria de acreditar que a voz da sua consciência voltara a falar como um menino de dez anos de idade.
Mas o problema não era esse…
– Que… Quem está ai? – ele indagou em voz alta, gaguejando e girando nos calcanhares.
“Que idiota!”. Agora sim era aquela voz conhecida, a voz da sua consciência, reprimindo-o como de costume; e como quase sempre, com razão.
O problema era que havia ninguém, senão ele, ali.
O problema era que, na verdade, ele parecia conhecer a voz que lhe falou.
O problema era que parecia ser a voz de seu filho.
O problema era que seu filho morrera havia sete anos. Ou seriam sete meses? Sete dias? O tempo é engraçado, não é mesmo?
O problema era que não conseguia se lembrar ao certo. Talvez não quisesse.
O problema é que há coisas que a gente nunca esquece.

* * *
Voltou a caminhar. Na verdade havia voltado a caminhar. Dessa vez, adentrara ma das ruas, mas quando ou qual rua ele não saberia afirmar ao certo. Fez sem olhar. Se tivesse olhado entraria na rua sete. Se tivesse se lembrado.
Algumas folhas passeavam com o vento, enegrecidas pela noite escura; escura como ficavam suas vestes naquela noite; naquela noite escura, naquele lugar escuro. Vez ou outra lhe chamavam a atenção e ele desviava o olhar; quando retornava só faltava xingar a si próprio de estúpido (no mínimo), já que não conseguia responder sequer uma simples pergunta que lhe acometia a cada vez: “qual foi a última vez que olhei mesmo?”. Contudo, foi em uma dessas vezes, dessas que olhava para o lado – ou para trás, ou para baixo – na qual sua visão periférica encontrou algo mais. Algo imprevisto, uma sombra talvez, cuja sua primeira reação foi negar piamente.
Seria essa sombra a de seu filho? Do mesmo filho que acreditava ter ouvido a voz? Bem, poderia ser, mas somente se seu filho tivesse crescido uns sessenta centímetros. Só se seu filho tivesse adquirido a estatura de um jovem de aproximadamente vinte anos. E, só se seu filho estivesse vivo para poder fazer isso; se não estivesse morto.
Um calafrio. Acreditou que seu coração iria disparar, acelerar subitamente. Até seria compreensível se o fizesse. Entretanto, não o fez, o que era mais difícil de compreender. Por outro lado, isso queria dizer que ele estava bem, não? Que nada daquilo tinha de fato lhe afetado… sequer ocorrido, não é? E o fato de ele não conseguir parar de olhar para o lado ou para trás mesmo sem o movimento das folhas ou do vento para lhe chamarem a atenção, também era nada. Nada demais. Só – vamos dizer – estava olhando por precaução, certo? (tudo bem para você?)
A coisa era mais ou menos assim: John voltara outra vez a caminhar, mas deixara de olhar as fotos; já não ligava – muito – para isso ou para o cheiro das flores, ou até para o modo que aquelas estátuas se moviam, moviam seus olhos e o observavam. Bem, para ele pareciam estar observando. Dava alguns passos – dois ou três; com coragem quatro – seus pés esmagando alguns pedregulhos e o som às vezes lhe provocando, lhe enchendo a mente. Então acelerava, quase chegando a correr; subitamente parava e olhava para trás ou para o lado, só para ver que havia ninguém lá. E havia sempre ninguém.
Olhou novamente uma fotografia, pregada numa pedra, numa estrutura de pedra, e a olhou casualmente.
Meu Deus! Era impossível que não houvesse percebido antes. E também era impossível que sua mente houvesse lhe pregado uma peça tão grande durante tanto tempo. Como também era impossível que tudo aquilo fosse real. No entanto, estava vendo com seus próprios olhos…
Não havia rostos naquelas fotos. Por isso não encontrara quem estava procurando. Ele estava procurando alguém? Não! Ao menos, achava que não. Não se lembrava. O que estava fazendo ali?
Correu. Sua cabeça ia de um lado para o outro sem parar, mas seu pescoço não doía, seu cérebro estranhamente não acusava dor. Estava certo. Sombriamente certo. Não havia rastros. Não havia Lua nos céus, apenas nuvens carregadas. Algumas poucas luzes lusco-fuscas naquele lugar escuro, naquela noite escura. E não havia por quê. Aparentemente não havia por que, como aparentemente não havia dor. Embora ele pudesse afirmar com certeza que não havia. Que estava certo. Sombriamente certo.
Nossa! – de repente muitas coisas lhe vieram à mente e ficaram claras, ou talvez horrendamente mais escuras, sombrias. E vieram em formas de perguntas. O que aconteceu? Que blusa é essa? Uma jaqueta? Ele não se lembrava de ter comprado uma. De fato, não se lembrava sequer quando foi que a vestiu e por quê. A última coisa que se lembrava era de estar parado em algum lugar entre as ruas seis e sete.
Começou a entrar em pânico. Se é que já não havia entrado em pânico antes. Será? Não se lembrava ao certo. Tirou rapidamente, desajeitado, a jaqueta – como se sentisse nojo dela. Na verdade sentia, só não se lembrava por quê. Jogou-a no chão em algum lugar naquele lugar escuro, no chão de pedregulhos, e na mesma hora o vento que antes apenas brincava com as folhas, brincava com ele, passou a congelá-lo, e ele levou os braços para junto ao corpo, apertando, numa espécie de abraço em si próprio.
Talvez achasse estranho não lembrar quando os removera dali; mas isso só se se recordasse de já tê-los levado ao corpo antes.
Estava perdido, talvez como estivera toda a noite. Talvez não.
Seu corpo tremia, e não era de frio. Algumas lágrimas que lhe escapavam dos olhos confirmavam isso. Estava realmente assustado – para ele, abruptamente assustado, e sem motivo –, estava com medo. Mas nunca teve medo de ficar sozinho, mesmo antes de dormir quando era pequeno. Sua mãe sempre lhe dizia: “que menino corajoso!”. Tampouco tinha medo do escuro. O que ele temia era o fato de talvez não estar realmente sozinho.
continua…

Rosas de Inverno

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , em Maio 20, 2008 por yohankoh

Ele se sentou à cabeceira, não que fizesse questão, pelo contrário, sequer queria uma mesa com cabeceira, mas assim como a cortina florida (com petúnias) e o papel de parede de seu quarto, fora idéia de sua mulher – para manter um nível inconsciente de hierarquia, é importante para as crianças. Quem mandou casar com uma psicóloga? Serviu-se de duas fatias de pão integral sete grãos, e uma generosa porção de geléia de morango, para equilibrar. Seu filho mais velho logo desceria também para tomar o café-da-manhã – a menor tinha apenas cinco anos e ainda estudava de tarde.
Alguns poucos minutos depois, enquanto terminava seu sanduíche e começava a se servir do café fraco demais de sua mulher, escutou os passos apressados na escada de madeira que indicavam que Claudinho estava descendo.
- Bom dia, meu velho! – disse o menino sorridente.
- Está alegre hoje, filho…
O menino não respondeu nem continuou a conversa, sentou-se também sem prestar mais atenção no pai e serviu-se de cereais de milho, leite e…
- Não tem fruta, pai?
- O que é Claudinho? – respondeu abaixando sua caneca que estava a meio-caminho da boca.
- Morangos, banana… “Fruta”!
Ele pensou em retrucar dizendo que sabia o que era uma fruta, só não havia escutado direito, ou melhor, até tinha escutado, mas questionou como às vezes fazemos: para dar algum tempo de pensar na resposta, no entanto não se sentiu motivado pra tanto.
- Acho que sua mãe trouxe maçã e pêra, devem estar na geladeira…
- Para evitar aqueles mosquitinhos chatos, né? – Cláudio imitou a mãe.
- Pois é, creio que sim, mas vão ficar pretas, então é bom comê-las rápido – disse pensando que não teria jeito de qualquer forma, “ninguém é tão rápido assim”.
- Pêra e maçã não têm nada a ver com Sucrilhos – escutou o filho reclamar, mas já tinha levantado novamente a caneca de café e dessa vez nada o iria impedir de beber aquilo enquanto ainda estivesse quente (ou o mais próximo disso que poderia estar).
- Concordo – disse enquanto sorvia o líquido já gelado.
Foi então a vez de Cláudio pensar em reclamar, mas parou no meio da fala. Depois diria direto pra mãe.
Para dizer a verdade, as manhãs eram quase sempre assim, e as tardes e noites seguiam na mesma toada. Bianca, sua mulher, saía de manhã para o escritório próximo aos Jardins – antes que todos resolvam querer sair e eu resolva querer voltar, dizia ela, e sempre que lembrava disso, Ricardo Prado (sim, esse era seu nome, mas era mais conhecido como Richard ou, Ri, ou “meu velho”) pensava que era o mais próximo que sua mulher poderia chegar de uma boa piada já havia algum tempo –, dava um beijo em seu rosto ainda na cama e deixava o café pronto. Claudinho descia e reclamava de alguma coisa sem perder o bom-humor usual, com seu uniforme do colégio e o sorriso ingênuo no rosto e logo depois do menino sair ele subia para acordar Bruninha, sua filha menor, antes de ele próprio sair para o trabalho. Era arquiteto civil e trabalhava numa empresa de médio porte próxima ao Brooklin, não muito longe da sua casa, mas infelizmente suficiente para precisar usar o carro: um Fiesta Sedan, prata, já com cinco anos a mais do que ele gostaria que tivesse.
Nada disso o incomodava, não mais, a não ser aquilo; aquilo de seus filhos – pois não era só Claudinho, Bruna também – de parecer nem sequer perderem tempo reclamando com ele de alguma coisa, preferiam “falar direto com a mãe”. Toda vez era como se uma pequena agulha cuidadosamente colocada num lugar que doa, próximo ao peito, fosse um pouco empurrada mais para dentro, só pra lembrá-lo que está ali e que, convenhamos, não vai sair dali.
- Velho?!
Ricardo não respondeu.
- O que foi, meu velho? – repetiu Cláudio enquanto terminava seu cereal. – Pai?!
Foi só então que ele escutou e voltou de seus devaneios.
- O que foi, filho? Precisa de alguma coisa? Não vai se atrasar, não é?
- Não, meu velho – respondeu o menino, tomando um gole de suco de laranja de caixinha (pelo menos isso Ricardo conseguira convencer a mulher que seria melhor do que ter de espremer frutas todas as manhãs para que tivessem o suco 100% natural, pensava na coisa com um orgulho débil).
- Bom! Isso é bom. Eu também não posso vacilar, já já tenho que subir e acordar sua irmã.
- A Bruninha já ta de pé eu acho, vi o som da TV ligada no quarto dela quando passei – retorquiu o menino sorridente.
- Hum… – Ricardo tinha um ar ponderado e sem ânimo – de qualquer modo, vou lá conferir assim que você for pra escolinha.
- Escolhinha?! – perturbou-se o garoto. – Já estou na sexta série! Ano que vem vou pra sétima.
Assim esperamos, pensou Ricardo, mas não disse.
- Ah, é mesmo, desculpe… – falou com a voz baixa – já está um garotão, hein?
Cláudio tentou detectar qualquer resquício de sarcasmo ou ironia na fala do pai, mas não pôde. Não havia. E então deu um sorriso ainda maior e se animou ainda mais.
- Você sabe o que vou ser quando crescer ainda mais?
- Um velho como o seu pai, se Deus quiser!
- Não! – aborreceu-se o menino – Não to falando disso!
- Eu sei – ele explicou – só estou brincando.
Cláudio não riu. Mas logo se animou novamente e continuou contando enquanto terminava o suco e já arrumava as coisas pra deixar a mesa.
- Vou ser músico e artista de cinema, como a Norah Jones ou o Bob Dylan!
Ricardo ficou quieto. Ao ouvir seu filho dizendo aquelas palavras alguma coisa doeu dentro dele e não tinha nada a ver com aquela agulha ou qualquer outra dessa vez, era alguma outra coisa.
Ao ver que o pai apenas o olhava, Claudinho continuou sem perder o ânimo, gostava quando lhe prestavam atenção.
- Estou treinando com o violão todos os dias – é verdade, estava mesmo, e todos na casa esperavam que ele aprendesse rápido e achavam uma boa idéia “da mãe” ter comprado um violão ao invés de uma guitarra – e já toco Stairway to Heaven quase até o final, tirando aquele solinho besta do meio, e já falei com o Paulinho, aquele amigo meu lá do time que também toca, porque o pai dele é produtor de vídeo e o Paulinho disse que pode me dar uma força com a minha carreira. Aí faço alguns clipes e tals, sei que o começo é difícil, li em várias revistas o pessoal das bandas famosas falando… Sabia que o Metallica antes da fama teve que pedir uma torradeira ao pessoal do Anthrax, porque tavam duros como pedra?… Mas depois, se começar a dar certo é só seguir e estar sempre na mídia, fazer falarem de você, sabe? E como já vou ter feito alguns videoclipes, depois a minha carreira de ator vai ficar mais fácil também, não acha?
A coisa toda parecia estar muito certa na cabeça do menino, Ricardo pensou, no mínimo já tinha feito esse discurso para os amigos – e a mãe –, várias e várias vezes, sempre acrescentando um ponto importantíssimo de como conseguiria alcançar tudo isso de maneira certa, e apesar de difícil no começo, simples.
- Eu também já tive sonhos, filho – ele diz, quase que deixando as palavras escaparem sem nem sequer um sorriso amarelo para acompanhar.
Claudio levanta e coloca os pratos e copos na pia como o pai o havia ensinado a fazer. Escova os dentes rapidamente no lavabo anexo convenientemente à cozinha e despede-se com um Tchau já perto da porta que fecha atrás de si depois de sair para pegar a perua. Vai pra escola sem entender muito bem o que o pai quis dizer.
Ricardo termina seu café-da-manhã sem pensar em mais nada ou trocar qualquer palavra com ninguém, sobe e chama a filha que reclamou do tempo e que não teria “parquinho” na escola naquele dia. Desce novamente e lava a louça deixada por ele, o filho e a mulher antes de sair. Prepara rapidamente um lanche e um copo de café-com-leite para Bruninha e deixa sobre a mesa à espera da menina.
Antes de sair desce mais um lance de escadas até o que seria o porão, mas que na verdade era só um espaço da casa que destinaram para jogar as coisas que não usavam com freqüência ou que haviam se apegado demais para simplesmente jogarem fora. Se aproxima de um armário antigo de madeira escura e já bastante comida por cupins que nunca foram achados – talvez tenha sido o tempo mesmo – e abre a primeira gaveta fechada a chave. Um cheiro de velho chega às suas narinas, mas ele não parece se importar. Lá dentro uma pilha de folhas escritas à máquina e ligeiramente amareladas descansa um longo sono. Na primeira delas, logo em cima, podia ler um título: “Rosas de Inverno”, e logo abaixo, em itálico “um romance de Ricardo A. Prado”. Passou-se alguns momentos em que ambos, folhas e Ricardo, pareceram um só, imóveis e olhando um ao outro até que ele fechou a gaveta com força e trancou novamente, dando duas voltas na chave.
Ainda podia ouvir o estrondo seco da gaveta se fechando enquanto subia a escada outra vez e caminhava alguns passos até a mesa onde repousava sua valise preta de fecho dourado, bem parecida com a que seu próprio pai usava quando era vivo. Pegou-a e também o canudo com os projetos que levara para terminar em casa, no dia anterior. Deu uma última olhada para a casa silenciosa, e o lanche ainda à espera da filha sobre a mesa, ajeitou um pouco os cabelos no pequeno espelho próximo à porta e saiu.

小親愛的 (Little Darling) – Parte 1/2

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , , , em Fevereiro 16, 2008 por yohankoh

Ele chamou o garçom até sua mesa com um aceno. O sujeito sorridente chegou rápido.

            – O que vai ser hoje, senhor – disse ele.

            – Me faz um favor?

            – Claro senhor. Estamos aqui para isso! – parafraseou.

            – O drink da casa para aquela moça ali. – apontou.

            – Um V8 para aquela chinesinha ali? – confirmou prestativo.

            – Perfeito! Com fogo e tudo.

            – Claro, senhor, mais alguma coisa?

            – Ficaria ruim se eu pedisse um também?

            – Eu acho que não, senhor? Um V8 para o senhor também?

            – Sim, por favor.

            – Claro, meu capitão, está saindo! – sorriu com certo desdém que ele notou, mas preferiu não tecer comentário. Precisava ainda do tal favor. – Ela é a mais bonita da noite, sem dúvida. Se eu fosse o senhor chegaria beijando, sabe? Hoje em dia mulher não quer muito papo não! Acha que cê é lerdo ou até viado se falar demais…

            – Certo, vou pensar nisso! Enquanto isso me traz os drinks.

            – Podexá! Mal não vai fazer, né? – brincou com uma piscadela.

            – Pois é. – ele piscou de volta já se sentindo esgotado.

 

            Ele olhou ao redor, não conhecia ninguém, mas ao mesmo tempo pareciam os mesmos rostos de sempre. O casal à sua frente já não se amava mais e ele soube disso com poucos minutos, é impossível que ambos não percebessem se ficassem mais que esse tempo próximos um do outro. Ou então é a tal da conveniência. Ele se perguntava: “a quem isso haveria de ser conveniente?”. Ao lado dois amigos conversavam. O mesmo papo que ele mesmo já pensara em gravar para os dias que não quisesse nem gastar saliva. Apostava que ninguém sequer perceberia.

            Mais uma música iria se iniciar: Walk of Life. Ele reconheceu logo pelos primeiros acordes. Outra que, sem dúvida, poderia gravar, mas nesse caso alguém já havia feito isso antes dele; mais especificamente o Dire Straits. Do outro lado estava o sujeito sorridente com as duas bebidas sobre a bandeja flamejante. “Ao menos chama a atenção, sem dúvida!”, pensou e também sorriu. Até que foi rápido mesmo. Iria se lembrar do fato na hora de deixar a gorjeta, mas esperava que esquecesse. Não esqueceu.

            O garçom entregou a bebida, o V8 – receita secreta da casa, guardada a sete chaves… ou algumas notas de cinqüenta. Havia chegado a hora. Podia até ler nos lábios do homem: “esse é por conta daquele senhor ali”. Achou engraçado. Não o fato da frase padrão, mas o de ter sido chamado de senhor. Quando o sujeito se referiu a ele anteriormente não havia se importado porque imaginara ser de tom respeitoso – por sinal deslocado completamente do ambiente informal do bar onde estava – mas ouvindo agora (ou quase) não conseguiu deixar de achar estranho, afinal não tinha chegado sequer à casa dos trinta. Rapaz, pensou, teria sido uma opção melhor. Mas isso tudo não importava, precisava aproveitar o momento e dar seu melhor sorriso, levantar o copo como num brinde à distância, aquela coisa toda.

            Ela aceitara. Também, quem recusaria? O drink além de bonito era muito gostoso. Poderia ser um pouco mais forte, sem dúvida, mas quem se atreveria a mudar um miligrama da receita ultra-secreta? Esse pensamento o fez sorrir com mais facilidade. Temeu que houvesse sido demais, mas não foi. No mínimo ela pensaria: “que palhaço!”.

            Por outro lado, ao menos assim saberia o que ela pensara. Estava com as amigas umas duas mesas para o lado, é sempre uma situação complicada.

            Bem, o primeiro passo havia sido dado, agora era só continuar andando: keep walking. Esperou pelos primeiros goles e pelos últimos e caminhou até lá.

            – Oi, se apresentou. Você sabe por que colocam fogo nesse drink?

            – Não!

            – Pois é, e aposto que eles também não vão querer falar… – fez uma cara de ultraje. – Mas é gostoso mesmo assim, não é?

            Ela riu. Ponto! As amigas acompanharam. Ponto! Mas não todas… Bem, não importava, a tal sem-humor era feia e ele acrescentou mentalmente (provavelmente mal-amada).

            Esperou por um convite para sentar. Não houve nenhum.

            – Eu tenho um palpite… – emendou antes que fosse tarde demais. Dessa fez teriam de convidá-lo a sentar se quisessem matar a curiosidade. Saber atiçar a curiosidade de uma mulher era um dom que todo o homem deveria aprender a cultivar.

            – Ah é? – a menina perguntou. A tal feia. Mal amada e curiosa.

            Ele se sentou. Apenas com um movimento de corpo para confirmar se podia realmente. Já não tinha dúvidas, era só questão de educação. Abaixou-se um pouco, aproximando a cabeça da mesa como se contasse um segredo.

            – Por que ele é mais gostoso quente! É uma jogada de marketing!

            Deus abençoe a bebida e o álcool: elas riram de novo!

            – Olha só – disse uma delas um pouco depois – você é muito engraçado e eu não queria te desanimar, mas ela não vai ficar com ninguém hoje.

            – E quem disse que eu quero ficar? Eu sou um rapaz sério! Quero namorar, casar, ter três filhos com nomes muito legais, que demoraremos meses para escolher mas que em semanas transformaremos em diminutivos, um cachorro para eu poder reclamar com ele das coisas que os cachorros fazem porque afinal são cachorros e envelhecer o suficiente para achar divertido jogar dominó – quem sabe ser campeão do clube da terceira idade, ou amigos do bairro…

            – Ah há! – riu uma outra garota, loura com os olhos castanhos mel – é sério, a Kaori terminou o namoro de seis anos pouco tempo atrás…

            – Isso é verdade? – ele perguntou a menina que agora sabia o nome.

            – É sim – ela respondeu.

            Não houve complemento na frase. Isso foi tudo. Se ele guardara uma carta debaixo da manga essa era uma excelente hora para usá-la.

            – Tudo bem. Então façamos o seguinte – disse. – Eu sou um cara competitivo, você é competitiva?

            – Sou!

            – Pois eu sou muito mais competitivo que você! Quer competir?

            Ela sorriu. Mas não demonstrou abertura nenhuma.

            – Façamos o seguinte. Vamos apostar alguma coisa. Bem, eu aposto que consigo te beijar sem tocar os seus lábios!

            Está certo, estava longe, bem longe mesmo, de ser original, mas com relação à carta na manga: ele não tinha nenhuma carta na manga.

            – Vamos apostar vinte reais. Se eu perder, pelo menos te ajudo a ficar bêbada mais rápido, o que acha?

            Todos os olhos que haviam convergido para ele agora miravam os olhos puxados de Kaori. Ele só tinha uma chance, muito pequena, de que nenhuma delas tivesse um dia apostado uma coisa dessas com ninguém antes. E foi então a vez da sorte lhe sorrir.

            “Se você quer rir tem que fazer rir”, lembrou.

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break on Through

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , em Janeiro 24, 2008 por yohankoh

Ler ao som de Stay: U2.

Já era sua terceira noite em claro. Novamente estava muito nervosa para dormir, o sono simplesmente não vinha; a cabeça ocupada demais ruminando tudo que havia acontecido nos últimos dias. Isso e a maldita fome. Jamais tinha sentido algo parecido antes, no entanto nada lhe parava no estômago. Aqueles que já haviam passado pelo que ela estava passando, ou próximo disso – porque as coisas nunca são exatamente iguais, a despeito do que pensam alguns pais autoritários ou alguns casados de longa data -, lhe disseram que isso era normal; “É assim mesmo”, diziam. Ela não queria acreditar, esperava que passasse, como um resfriado ou um amor jurado eterno.

Um relógio de rua mostrava a temperatura: vinte e dois graus, mas ela sentia como se estivesse muito mais frio; tremia. Esperou por um momento e lá estava: três da manhã! A fome persiste, ainda mais intensa, mas ela não tem mais coragem de tentar ingerir qualquer coisa. Mais um pouco e a alvorada! E enfim talvez o sono. Ao menos tinha sido assim nos dois dias anteriores em que se negou a dormir durante o dia, pois tinha medo que se o fizesse, se começasse com esses hábitos, sua vida realmente nunca mais seria a mesma. “talvez se eu não ceder, talvez enquanto tiver esperança”, pensava. Mas nesse ponto, já era tarde demais, e no fundo de seu coração ela sabia disso.

Uma loja de conveniência 24 horas, na esquina de sua antiga casa, longe de onde seria obrigada a morar. Devia ter andado quilômetros até parar ali, no entanto não se sentia cansada. Entrou por um pacote de cigarros. Não fumava; nem sequer queria fumar. Pediu o maço ao atendente, mas o fez sem educação. Provocava o homem, com suas palavras primeiro e depois com seu corpo. Devia estar enlouquecendo, mas se achou sexy, e até o próprio fato de poder estar ficando maluca deixava a tudo mais excitante. Procurava ao mesmo tempo por uma boa transa ou um bom soco da cara – um bom tapa que fosse, se aquele homem não tivesse coragem de lhe bater como merecia – era uma disputa entre sua boca pecaminosa e seu corpo buscando pelo pecado. No entanto ambos queriam a mesma coisa, a coisa que lhe fez entrar pelos cigarros: queria se sentir viva!

Puxou um cigarro do maço sem sequer ter pagado por ele, colocou na boca e a estendeu para que o atendente o acendesse. Não conseguiu nem a transa nem os socos, esperava ao menos esse fogo. Talvez estivesse mesmo morta, ou talvez fosse realmente demais esperar que o homem acendesse seu cigarro depois do que dissera ou de quase ter se despido e atirado sobre ele ali mesmo. Não sabia ao certo, mas não acreditava estar morta. Não podia acreditar nisso! Sentia frio e sentia fome.
E alguma coisa dentro dela sabia que apesar de não ter correspondido aos apelos de sua boca ou satisfeito os de seu corpo, essa última ele poderia resolver. Olhou novamente para o homem: um olhar esguio. Retirou o cigarro ainda apagado da boca e pensou até escutar a mente do sujeito dizendo: “lá vem ela de novo! O que será dessa vez? Acho que vou ter que dar um jeito nessa mulher mesmo!

Ela sorriu com desdém, mas algo em seu íntimo já havia sorrido antes. Se ele quis dizer “alguns bons socos” ou “uma boa transa” com aquele “dar um jeito” isso já não fazia diferença alguma: já era tarde demais.

Sentada ao lado do corpo inerte do plantonista já sem sangue algum no corpo ela sentiu algumas lágrimas lhe descerem o rosto, mas até para elas o tempo havia se esgotado; levavam embora seus últimos e insistentes traços de humanidade, que já não insistiam mais. Já não sentia mais fome. Tirou o isqueiro do bolso do homem morto e acendeu o cigarro. Sua boca ainda ligeiramente trêmula e vermelha sujou-lhe a ponta – lhe pareceu como batom. Com algum esforço deu a primeira tragada de sua vida. Sentiu a fumaça quente descer-lhe a garganta até os pulmões. Demorou um pouco, como se esperasse que preenchesse o enorme vazio de seu interior, e a soltou. Não havia surtido efeito. Era óbvio. Riu de sua própria ingenuidade. Nada, em tempo algum preencheria aquele vazio… “Mas ao menos não preciso me preocupar com a fumaça ou o cigarro”, pensou, “vampiros não morrem de males causados pelo tabagismo!”.

Longe dali, longe de tudo que conheceu, de sua vida e seu passado, ela dormiu um sono pesado quando o amanhecer chegou.

Alguns ensaios e considerações

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , , , em Janeiro 7, 2008 por yohankoh

Quando o texto estiver mais completo o colocarei aqui em capítulos. Até lá espero expor a linha de raciocínio e que seja alvejado por opiniões.
Considerações – “Os Amores da Minha Vida”

Um conto de Natal

Postado em S1 - por Marcelo Varanda em Novembro 28, 2007 por yohankoh
Mudando o estilo dos textos e puxando um pouco mais para o gênero
que procurarei seguir em minhas obras, abaixo encontra-se a
introdução que desenvolvi para um conto de natal.

Chegou em casa tarde. Entrou e fechou a porta, girando apenas uma vez a chave. Frequentemente se perguntava por que existiam pessoas que insistiam em dar a segunda volta. “A primeira não fecha de verdade, é só brincadeirinha!”. Demorou a acender as luzes só pra sentir um pouco mais aquela escuridão silenciosa. Atrás de si as lâmpadas da árvore de natal brilhavam intermitentes, amarelas, vermelhas, azuis e as novas: verdes; ele podia ver os reflexos de suas luzes na parede, transformando galhos em monstros malévolos feitos de sombra.

- Papai, vem, vamos montar a árvore!…

A princípio ele apenas respondia: “mas a árvore já está montada, querida”, somente para ouvir a voz da filha chamando novamente. Isso mesmo sabendo que a menina morrera junto com a mãe havia três anos. Dessa vez ele apenas acendeu a luz.

* * *
- Olá, você tem duas mensagens em sua caixa de mensagens? Deseja ouvir suas mensagens agora?

Ele apertou o botão da secretária eletrônica distraidamente enquanto abria a segunda gaveta do móvel abaixo do aparelho, contando de cima, e retirava de lá novamente a caixa com laço vermelho que um dia já abrigou seu último presente para a filha.

- Primeira nova mensagem: mensagem recebida hoje, seis horas atrás…

Sentou-se na cabeceira da mesa de jantar com lugar para uma dezena de pessoas e depositou a caixa no tampo de vidro, feliz por livrar-se de seu peso.

- Oi, Paulo, sou eu, a Dani, você está bem? Desculpa estar ligando, é que você não me ligou de volta aquele dia e eu fiquei esperando… estou com saudades, me liga quando puder.

Abriu o laço com carinho, como se ainda fosse tirar de lá o próprio vestidinho branco com corações com o qual presenteara a menina mais de uma semana antes de seu aniversário – não conseguia agüentar de ansiedade para ver quão linda ela iria ficar e seu sorriso ao exibir-se no espelho.

- Segunda nova mensagem: mensagem recebida uma hora atrás…

Sentiu outra vez o metal gelado encostar sua orelha, mas já não lhe causava sequer arrepios. Girou o tambor ao acaso e destravou o gatilho. Tudo feito com calma, numa lentidão mecânica. Uma única pergunta insistia em torcer-lhe a mente como se a envolvesse com algum tipo de arame e puxasse: “Por que eles as levaram ao invés de mim?”. Por vezes havia se perguntado o que faria se fosse obrigado a escolher entre a vida de sua mulher e filha ou a dele, por um maníaco ou coisa assim, mas nunca conseguiu responder a si mesmo com a certeza e a sinceridade que gostaria. E, agora que conseguia isso não fazia mais diferença; no mais, eles não lhe deram o poder da escolha.

- Oi, Paulinho, você ta ai? Sou eu de novo, a Dani. Vou estar na cidade amanhã, por que não jantamos juntos naquele restaurante de sempre? Já faz tanto tempo! Se lembra como a Katie adorava ir até lá e pedir o “sorvete gigaaaaante”? Aposto que se ela tivesse ai te convenceria a ir mesmo que arrastado! Bem, me liga quando puder, bjos!

Respirou fundo. Olhou pela janela procurando alguma estrela no céu. Seria uma pena ou uma dádiva morrer sob um céu estrelado? Colocou a arma novamente sobre a mesa. A resposta teria de esperar: na noite seguinte precisava jantar com a irmã.

- Papai, papai, vamos, vamos com a titia! Eu vou querer aquele sorvete gigaaaaante… – ouviu dizer a mesma voz que o saldara ao chegar.

…“Sua irmã jogara sujo.”.

Abriu outra vez a caixa. Pegou o laço de sobre a mesa de jantar, mas precisou lutar para mantê-lo seguro, pois ele insistia em escorrer-lhe dos dedos, como líquido pegajoso por entre os dedos, vermelho sangue. E de uma hora para outra tudo estava simplesmente envolto por aquele tom rubro. Forçou os olhos e balançou violentamente a cabeça – algumas vezes isso funcionava. Para sua sorte, essa foi uma delas, não seria hoje que ficaria louco. Já chega! Arrumaria tudo na manhã seguinte! Ninguém iria visitá-lo mesmo. E ainda que entrassem lá para uma xícara de açúcar de última hora, o que pensariam? Que ele era uma maníaco suicida?

Caminhou até a ponta das escadas que levavam aos quartos no piso superior. Descalçou os sapatos e calçou os chinelos: seus pés estavam o matando! Subiu e a caminho do quarto pegou uma garrafa de água: suava muito às noites e acordava frequentemente com a boca seca. Foi direto pra o quarto no fundo do corredor, o banho também ficaria para a manhã seguinte.

Deitou-se e ajustou o despertador para as oito horas, desligou o abajur sobre o criado-mudo ao lado da cama e apoiou a cabeça no travesseiro.

Mal tinha cochilado pela primeira vez quando um baque seco e ensurdecedor o acordou. Estava acostumado com pesadelos o suficiente para saber que desta vez não se tratava de um. Acendeu novamente o abajur e ficou olhando para os lados repetidas vezes até encontrar o que procurava. Anotou numa folha de postit: “uma bala de revolver calibre 38, não esquecer”. Colou-a onde ficasse visível e voltou a apagar o abajur. Repousou a cabeça novamente e em pouco tempo adormeceu.

Retalhos

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , em Novembro 10, 2007 por yohankoh

“Está tudo errado…” releio essa mensagem ainda mais uma vez. “Vai depender…”. A festa continua em alguma casa perto. Presto atenção por um tempo, mas logo me canso; fecho a janela para afastar o frio e a música brega. Aperto o “enviar”. Na mensagem só consegui escrever: “Feliz Aniversário”. Logo a receberei em meu outro celular; já não há qualquer sentimento de surpresa. Este ano vou guardar na caixa de mensagens.

Basta que se repare um pouco para notar que nossas vidas têm muito de filme. Geralmente daqueles de humor barato, nos quais o protagonista só se fode – por falta de termo melhor. Hoje, no meu caso, isso ficou bem visível. A câmera certamente teria focado o sujeito assim como meus olhos fizeram: meio que de relance. E desde então o telespectador mais experiente já saberia que alguma coisa aconteceria que teria a ver com o tal sujeito, pois não são dados na vida, como nos bons filmes, esses tipos de foco por acaso, mesmo que de relance…

É essa maldita vontade de chorar. E depois o cartão sem crédito, o trem que acaba de partir, os humanos demasiado humanos. Coloco os fones de ouvido e aumento o volume até não poder mais ouvir meus pensamentos… Impossível!

E é em meio ao som dessas lágrimas caindo que vislumbro a solidão do meu caminho… Certa vez li que existem sentimentos tão profundos, tristezas tão implacáveis, que até às nuvens fariam chorar. Ou talvez seja só algo que inventei… Seja como for, parece que a chuva vai demorar a passar.

 

 

Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se instalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.

Agora eu os pergunto: vocês conseguiram sentir a morte do menino? Não?

Eu não os culpo, a morte alheia já é algo que não costuma mesmo causar qualquer espécie. Agora imaginem então se esse menino fosse alguém da família de vocês, isso mudaria alguma coisa?

Certo, desculpem! Deste modo a coisa fica muito radical… Tentemos assim então:

( 1 )
Ele a deixou. Não tinha certeza se seria capaz, mas foi. Não soube o que pensar de si mesmo. Gostava dela, não tinha dúvida. Haviam trocado beijos, palavras, momentos o suficiente para ela o amar do fundo do coração, e, principalmente, para querê-lo só para ela. E ele a entendia, seus sentimentos justos. Mas entender não era suficiente.

Ela queria que ele deixasse alguém muito importante, que ele não deixaria por beijos e palavras ou dias, ou meses ou tempo que fosse; em tempo algum. E percebeu isso naquela mesma hora em que ela o fez decidir. Talvez tenha sido isso a lhe dar forças para deixá-la, mas ele duvidava. Para ele, havia apenas fugido. Não sabia o que pensar de si mesmo.

Era isso que passava em sua mente quando entrou na estação aquele dia quente, apesar do verão ainda demorar a chegar – e os meteorologistas na TV disseram que iria chover! “Quantos, como ele, não haveriam de estar segurando seus guarda-chuvas e agasalhos extras?”. Procurou pelo bilhete de passagem… “Só faltava essa!”. Encontrou logo no segundo bolso. Ficou feliz.

Olhou para frente novamente e notou um homem que já havia visto algumas vezes antes, naquele mesmo lugar. E lá ia ele de novo! Fingir que não havia notado que a catraca sem fila não possuía o mecanismo de passagem por cartão para então poder passar na frente dos demais na fila ao lado. Era um absurdo que ninguém mais notava isso! Ele não podia ser o único a vê-lo ali todos os dias. Claro que deveriam colocar o tal mecanismo em todas as catracas, formar-se-iam menos filas, mas da mesma maneira que o sujeito não tinha culpa, ele também não e assim mesmo não usava nenhum truque para passar na frente dos outros. Estava decidido – assim como se decidi qualquer coisa sem pensar direito só para que a vida mude um pouco – dessa vez ele ao menos faria uma piada a respeito antes de deixar o espertinho passar.

( 2 )
Saiu de casa. Não que houvesse alguém para olhá-lo sair. Não mais. Mas ele não se importava, fora ele quem escolheu assim. Na verdade não achou que tivesse escolha. Teve apenas que tomar uma decisão – dessas que se toma só para dar uma chance da vida mudar um pouco.

Havia chegado cedo na noite anterior. Se alguém da faculdade o contasse acharia que era coisa de filme. Havia lido em algum lugar que nossas vidas têm muito de filme, mas não leu como se realmente acreditasse, ou como se isso importasse de verdade. Chamavam-no de tio lá. Sempre ria quando se lembrava disso. Ele tio?! Como o tempo passa mesmo! E o tempo é capaz de fazer as pessoas mudarem, os sentimentos mudarem… sua mulher mudar.

Não disse nada quando empurrou a porta semi-aberta do quarto e a viu nua naquela posição com aquele homem se aproximando cada vez mais… e mais. Deus, até achou a coisa sexy, ficara repentinamente excitado!

Fechou a porta o mais forte que pôde! Queria ter algum poder como o dos heróis dos quadrinhos para ver através das paredes e conseguir vislumbrar a cara da mulher ao ouvir a batida. Era realmente uma pena!

Não voltou mais para a casa até o dia seguinte, quando realmente deveria ter voltado antes de tudo. Chegou a pensar até que a culpa havia sido dele – quem mandou voltar antes do combinado? “A ignorância é uma benção!”.

Foi ao trabalho. O dia demorou a passar, mas ele rezou para que demorasse ainda mais. Sabia que quando estivesse sozinho e com a mente desocupada não iria agüentar. Iria lembrar que os homens também choram… E como iria lembrar!

Chegou e abriu a porta com calma. Usou apenas uma das mãos. A outra segurava firmemente uma pistola calibre 38 que já fora de seu pai e do pai de seu pai antes dele. “É, já está na família faz tempo, e agora vai deixar a família menor”. Riu sozinho, mas não havia o menor resquício de felicidade em seu coração. Não mais. Havia chorado o tempo todo, desde que saiu do trabalho e entrou naquele trem, com destino a Zona Sul e em algum momento aquela água toda levara junto toda a felicidade. Lembrou de estar com pressa quando usou seu truque para passar pela catraca, queria logo chegar em casa e fazer o que tinha que fazer! Ele sempre estava com pressa, pensou – costumava trazer um pão de uma padaria que sua mulher adorava e precisava chegar rápido, antes que murchasse, era um pouco fora do caminho, mas nunca ligou de chegar um pouco mais tarde. Agora até isso lhe pareceu suspeito. Sentiu-se ainda pior.

Não é fácil matar uma pessoa. E, tinha como certo que a todo crime há um castigo. No caso de matar, ele chega muito rápido, muito. Leu em algum lugar que no máximo três segundos depois, enquanto a mão ainda dói queimada pelo calor excessivo e o cheiro de pólvora chega às narinas.

Não tinha certeza se seria capaz de fazer aquilo, mas foi. E não soube o que pensar de si mesmo. Sobre o corpo imóvel de quem amava profundamente chorou um rio de lágrimas. Havia enlouquecido, ou o mais próximo disso que já havia chegado na vida. Por que, diabos, teve de esperar que ela o abraçasse antes de apertar o maldito gatilho?! Deu vários golpes em si mesmo, mas sequer sentiu dor, nenhuma dor de nenhum golpe.

A última coisa que pensou antes de se atirar de cabeça contra a parede foi que a vida continuava… ao menos para alguns.

( 3 )
Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se estalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.

Gostaria de só se lembrar disso pelo resto da vida. Que durou pouco, pois um dos seguranças o alvejou – aquele maior de cor parda que nunca vira lá antes, mas que portava uma arma no coldre e de quem nunca se esqueceria o rosto: o rosto daquele homem que chegava cada vez mais perto de sua “ex”-mulher duas noites atrás. Lembrou-se que a vida continua… ao menos para alguns, pois para todo crime há um castigo, e o daqueles que matam é bem rápido, não mais que três segundos depois. “Qual teria sido o crime do garoto?”.

Sentiu o sangue queimar na garganta quando riu pela última vez, estava caído ao lado do menino; dois guarda-chuvas jaziam junto deles e lhes faziam companhia… “Hei, cara, sua mulher ta te traindo de novo e você quer assistir de camarote, só pode ser isso, né? Vai dizer!”… “Como ele iria saber?”.

“Se nasce por sorte, se vive por nada e se morre por acaso”.

Man at Word

Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags , , em Outubro 8, 2007 por yohankoh

Em breve mais que apenas sete palavras.