Quando o texto estiver mais completo o colocarei aqui em capítulos. Até lá espero expor a linha de raciocínio e que seja alvejado por opiniões.
Considerações – “Os Amores da Minha Vida”
Alguns ensaios e considerações
Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags amor, ensaio, humano, sexo, traição em Janeiro 7, 2008 por yohankohwriting – muitos dias…
Postado em Writing... com as tags amor, esquecimento, poesia em Janeiro 3, 2008 por yohankohAmanhã esquecerei você!
Escreverei isso todos os dias até que a tenha esquecido.
E escreverei mesmo sabendo que isso me fará lembrar de você.
Todos os dias…
Amanhã esquecerei você!
Escreverei isso todos os dias até que só reste a poesia.
E escreverei mesmo sabendo que a poesia é por você.
Todos os dias…
Amanhã esquecerei você!
Escreverei até que haja suficientes folhas para preencher as paredes que você tocou
Escrevei até que haja mais juras do que as que nunca fizemos um ao outro.
Até que esqueça todos os lugares que nunca fomos.
Todos os beijos que nunca demos.
E escreverei mesmo sabendo que os muros que nos separam jamais cairão
Todos os dias…
Amanhã esquecerei você!
Escreverei isso todos os dias por sobre suas fotos
E escreverei mesmo sabendo que isso nunca apagará a imagem que tenho de você
Todos os dias…
Amanhã esquecerei você!
Esquecerei onde mora, suas roupas, seus discos e seu telefone.
E esquecerei ainda que tenha que esquecer a mim mesmo.
Esquecerei a cor de seus cabelos e as cores que pintava as unhas.
E esquecerei ainda que tenha de esquecer as cores todas e toda beleza.
Esquecerei o modo que gostaria que me olhasse e o formato de seus olhos.
Esquecerei sua personalidade e seu nome.
Ainda que me perca…
Amanhã esquecerei você!
Amanhã, pois hoje já é tarde demais…
NO TEMPO DE BORGES
Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags Borges, poesia, sonhar, tempo em Dezembro 19, 2007 por yohankohAinda que em poucas palavras
Ainda que em dias tão breves
Sonhar esse sonho de casas
Sonhar como o conto dum cego
Ainda que infante no sono
Sonhar com pilastras sublimes
Sonhar com a doce coleta
Saber-se habitado no tempo
Da longa corrente incompleta.
Um conto de Natal
Postado em S1 - por Marcelo Varanda em Novembro 28, 2007 por yohankohMudando o estilo dos textos e puxando um pouco mais para o gênero que procurarei seguir em minhas obras, abaixo encontra-se a introdução que desenvolvi para um conto de natal.
Chegou em casa tarde. Entrou e fechou a porta, girando apenas uma vez a chave. Frequentemente se perguntava por que existiam pessoas que insistiam em dar a segunda volta. “A primeira não fecha de verdade, é só brincadeirinha!”. Demorou a acender as luzes só pra sentir um pouco mais aquela escuridão silenciosa. Atrás de si as lâmpadas da árvore de natal brilhavam intermitentes, amarelas, vermelhas, azuis e as novas: verdes; ele podia ver os reflexos de suas luzes na parede, transformando galhos em monstros malévolos feitos de sombra.
- Papai, vem, vamos montar a árvore!…
A princípio ele apenas respondia: “mas a árvore já está montada, querida”, somente para ouvir a voz da filha chamando novamente. Isso mesmo sabendo que a menina morrera junto com a mãe havia três anos. Dessa vez ele apenas acendeu a luz.
* * *
- Olá, você tem duas mensagens em sua caixa de mensagens? Deseja ouvir suas mensagens agora?
Ele apertou o botão da secretária eletrônica distraidamente enquanto abria a segunda gaveta do móvel abaixo do aparelho, contando de cima, e retirava de lá novamente a caixa com laço vermelho que um dia já abrigou seu último presente para a filha.
- Primeira nova mensagem: mensagem recebida hoje, seis horas atrás…
Sentou-se na cabeceira da mesa de jantar com lugar para uma dezena de pessoas e depositou a caixa no tampo de vidro, feliz por livrar-se de seu peso.
- Oi, Paulo, sou eu, a Dani, você está bem? Desculpa estar ligando, é que você não me ligou de volta aquele dia e eu fiquei esperando… estou com saudades, me liga quando puder.
Abriu o laço com carinho, como se ainda fosse tirar de lá o próprio vestidinho branco com corações com o qual presenteara a menina mais de uma semana antes de seu aniversário – não conseguia agüentar de ansiedade para ver quão linda ela iria ficar e seu sorriso ao exibir-se no espelho.
- Segunda nova mensagem: mensagem recebida uma hora atrás…
Sentiu outra vez o metal gelado encostar sua orelha, mas já não lhe causava sequer arrepios. Girou o tambor ao acaso e destravou o gatilho. Tudo feito com calma, numa lentidão mecânica. Uma única pergunta insistia em torcer-lhe a mente como se a envolvesse com algum tipo de arame e puxasse: “Por que eles as levaram ao invés de mim?”. Por vezes havia se perguntado o que faria se fosse obrigado a escolher entre a vida de sua mulher e filha ou a dele, por um maníaco ou coisa assim, mas nunca conseguiu responder a si mesmo com a certeza e a sinceridade que gostaria. E, agora que conseguia isso não fazia mais diferença; no mais, eles não lhe deram o poder da escolha.
- Oi, Paulinho, você ta ai? Sou eu de novo, a Dani. Vou estar na cidade amanhã, por que não jantamos juntos naquele restaurante de sempre? Já faz tanto tempo! Se lembra como a Katie adorava ir até lá e pedir o “sorvete gigaaaaante”? Aposto que se ela tivesse ai te convenceria a ir mesmo que arrastado! Bem, me liga quando puder, bjos!
Respirou fundo. Olhou pela janela procurando alguma estrela no céu. Seria uma pena ou uma dádiva morrer sob um céu estrelado? Colocou a arma novamente sobre a mesa. A resposta teria de esperar: na noite seguinte precisava jantar com a irmã.
- Papai, papai, vamos, vamos com a titia! Eu vou querer aquele sorvete gigaaaaante… – ouviu dizer a mesma voz que o saldara ao chegar.
…“Sua irmã jogara sujo.”.
Abriu outra vez a caixa. Pegou o laço de sobre a mesa de jantar, mas precisou lutar para mantê-lo seguro, pois ele insistia em escorrer-lhe dos dedos, como líquido pegajoso por entre os dedos, vermelho sangue. E de uma hora para outra tudo estava simplesmente envolto por aquele tom rubro. Forçou os olhos e balançou violentamente a cabeça – algumas vezes isso funcionava. Para sua sorte, essa foi uma delas, não seria hoje que ficaria louco. Já chega! Arrumaria tudo na manhã seguinte! Ninguém iria visitá-lo mesmo. E ainda que entrassem lá para uma xícara de açúcar de última hora, o que pensariam? Que ele era uma maníaco suicida?
Caminhou até a ponta das escadas que levavam aos quartos no piso superior. Descalçou os sapatos e calçou os chinelos: seus pés estavam o matando! Subiu e a caminho do quarto pegou uma garrafa de água: suava muito às noites e acordava frequentemente com a boca seca. Foi direto pra o quarto no fundo do corredor, o banho também ficaria para a manhã seguinte.
Deitou-se e ajustou o despertador para as oito horas, desligou o abajur sobre o criado-mudo ao lado da cama e apoiou a cabeça no travesseiro.
Mal tinha cochilado pela primeira vez quando um baque seco e ensurdecedor o acordou. Estava acostumado com pesadelos o suficiente para saber que desta vez não se tratava de um. Acendeu novamente o abajur e ficou olhando para os lados repetidas vezes até encontrar o que procurava. Anotou numa folha de postit: “uma bala de revolver calibre 38, não esquecer”. Colou-a onde ficasse visível e voltou a apagar o abajur. Repousou a cabeça novamente e em pouco tempo adormeceu.
Terça-feira
Postado em Dias em Novembro 20, 2007 por yohankohÉ preciso que se encontre um meio de chegar antes, passar na frente. Isso, mesmo que tal meio fira a moral ou seja dela completamente desprovido. Ah! E que aqueles que se dizem cheios dessa coisa que é a moral fiquem atrás e me olhem com seus olhos moralistas pelas costas.
No mais, “a moral é a fraqueza do cérebro”, como afirmou Rimbaud.
E não é preciso usar o cérebro para pensar a respeito. Só é preciso que se consiga um meio de chegar antes. Passar na frente. Eis tudo!
O som da cidade me inebria, e o cheiro da borracha queimada que entope minhas narinas.
Toda manhã.
Noosfera
Postado em Noosfera com as tags Dostoiévski, prisão, siberia em Novembro 15, 2007 por yohankohJesusalém
Postado em MALDOROR - por Júlio Moraes com as tags gravidade, javé, jerusalém, leis em Novembro 13, 2007 por yohankohPara desespero dos céticos, Deus, além do quartzo e das orquídeas, também criou a gravidade.
…
JERUSALÉM
Certa vez o Rei Davi adormeceu e pela noite alongada da terra dos filhos de Israel, sete anjos bons do Senhor desceram e lhe contaram de um mundo que seria seu. Descreveram-lhe que este mundo todas as coisas estavam sujeitas a cruéis leis de Javé. Disseram-lhe que nesta terra, não apenas os objetos, os animais e as pessoas pregavam-se ao chão, mas também que a água despencava pela manhã, o sol pela tarde e os cometas pela noite. Também os continentes mantinham-se rijos. Os mares ficavam indefesos. As ilhas pregavam-se ao solo sem conseguir abrir suas asas e alcançar as campinas de Javé.
Contaram-lhe, os sete anjos bons do Senhor, que apenas os pássaros e os loucos conseguiam fugir desta cruel lei, mas que também eles deviam retornar e o próprio mundo se pregava a outros mundos, que Davi se pregava a todos os corpos vivos sob o sol de Javé, que Jerusalém se pregava à outra Jerusalém.
Certa vez o Rei Davi adormeceu e pela noite alongada da terra dos filhos de Israel, sete anjos bons do Senhor desceram e lhe contaram de um mundo que seria seu. Descreveram-lhe que este mundo tudo se sujeitava ao vento. E que as colheitas, os arados e os livros eram esquecidos com o passar das luas. Que não apenas as palavras de Javé, mas os rostos dos filhos, o amor das esposas, a visão das montanhas de Gabaon, tudo se queimava como um filtro e que sob o sol de Javé os homens esqueceriam e tornariam a esquecer. Contaram-lhe os anjos que apenas os pássaros e os loucos conseguiam fugir desta cruel lei, mas que também eles esqueceriam um dia e se esqueceriam uns dos outros, que Davi se esqueceria de todos os corpos vivos sob o sol de Javé, mas que Jerusalém não se esqueceria, pois seu nome era Javé.
Quando acordou, Davi se lembrou que era rei num sonho criado por Javé.
Quando acordou, Davi se lembrou que era rei do mundo criado por Javé.
Retalhos
Postado em S1 - por Marcelo Varanda com as tags fragmentos, retalhos em Novembro 10, 2007 por yohankoh“Está tudo errado…” releio essa mensagem ainda mais uma vez. “Vai depender…”. A festa continua em alguma casa perto. Presto atenção por um tempo, mas logo me canso; fecho a janela para afastar o frio e a música brega. Aperto o “enviar”. Na mensagem só consegui escrever: “Feliz Aniversário”. Logo a receberei em meu outro celular; já não há qualquer sentimento de surpresa. Este ano vou guardar na caixa de mensagens.
–
Basta que se repare um pouco para notar que nossas vidas têm muito de filme. Geralmente daqueles de humor barato, nos quais o protagonista só se fode – por falta de termo melhor. Hoje, no meu caso, isso ficou bem visível. A câmera certamente teria focado o sujeito assim como meus olhos fizeram: meio que de relance. E desde então o telespectador mais experiente já saberia que alguma coisa aconteceria que teria a ver com o tal sujeito, pois não são dados na vida, como nos bons filmes, esses tipos de foco por acaso, mesmo que de relance…
–
É essa maldita vontade de chorar. E depois o cartão sem crédito, o trem que acaba de partir, os humanos demasiado humanos. Coloco os fones de ouvido e aumento o volume até não poder mais ouvir meus pensamentos… Impossível!
–
E é em meio ao som dessas lágrimas caindo que vislumbro a solidão do meu caminho… Certa vez li que existem sentimentos tão profundos, tristezas tão implacáveis, que até às nuvens fariam chorar. Ou talvez seja só algo que inventei… Seja como for, parece que a chuva vai demorar a passar.
–
Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se instalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.
Agora eu os pergunto: vocês conseguiram sentir a morte do menino? Não?
Eu não os culpo, a morte alheia já é algo que não costuma mesmo causar qualquer espécie. Agora imaginem então se esse menino fosse alguém da família de vocês, isso mudaria alguma coisa?
Certo, desculpem! Deste modo a coisa fica muito radical… Tentemos assim então:
…
( 1 )
Ele a deixou. Não tinha certeza se seria capaz, mas foi. Não soube o que pensar de si mesmo. Gostava dela, não tinha dúvida. Haviam trocado beijos, palavras, momentos o suficiente para ela o amar do fundo do coração, e, principalmente, para querê-lo só para ela. E ele a entendia, seus sentimentos justos. Mas entender não era suficiente.
Ela queria que ele deixasse alguém muito importante, que ele não deixaria por beijos e palavras ou dias, ou meses ou tempo que fosse; em tempo algum. E percebeu isso naquela mesma hora em que ela o fez decidir. Talvez tenha sido isso a lhe dar forças para deixá-la, mas ele duvidava. Para ele, havia apenas fugido. Não sabia o que pensar de si mesmo.
Era isso que passava em sua mente quando entrou na estação aquele dia quente, apesar do verão ainda demorar a chegar – e os meteorologistas na TV disseram que iria chover! “Quantos, como ele, não haveriam de estar segurando seus guarda-chuvas e agasalhos extras?”. Procurou pelo bilhete de passagem… “Só faltava essa!”. Encontrou logo no segundo bolso. Ficou feliz.
Olhou para frente novamente e notou um homem que já havia visto algumas vezes antes, naquele mesmo lugar. E lá ia ele de novo! Fingir que não havia notado que a catraca sem fila não possuía o mecanismo de passagem por cartão para então poder passar na frente dos demais na fila ao lado. Era um absurdo que ninguém mais notava isso! Ele não podia ser o único a vê-lo ali todos os dias. Claro que deveriam colocar o tal mecanismo em todas as catracas, formar-se-iam menos filas, mas da mesma maneira que o sujeito não tinha culpa, ele também não e assim mesmo não usava nenhum truque para passar na frente dos outros. Estava decidido – assim como se decidi qualquer coisa sem pensar direito só para que a vida mude um pouco – dessa vez ele ao menos faria uma piada a respeito antes de deixar o espertinho passar.
…
( 2 )
Saiu de casa. Não que houvesse alguém para olhá-lo sair. Não mais. Mas ele não se importava, fora ele quem escolheu assim. Na verdade não achou que tivesse escolha. Teve apenas que tomar uma decisão – dessas que se toma só para dar uma chance da vida mudar um pouco.
Havia chegado cedo na noite anterior. Se alguém da faculdade o contasse acharia que era coisa de filme. Havia lido em algum lugar que nossas vidas têm muito de filme, mas não leu como se realmente acreditasse, ou como se isso importasse de verdade. Chamavam-no de tio lá. Sempre ria quando se lembrava disso. Ele tio?! Como o tempo passa mesmo! E o tempo é capaz de fazer as pessoas mudarem, os sentimentos mudarem… sua mulher mudar.
Não disse nada quando empurrou a porta semi-aberta do quarto e a viu nua naquela posição com aquele homem se aproximando cada vez mais… e mais. Deus, até achou a coisa sexy, ficara repentinamente excitado!
Fechou a porta o mais forte que pôde! Queria ter algum poder como o dos heróis dos quadrinhos para ver através das paredes e conseguir vislumbrar a cara da mulher ao ouvir a batida. Era realmente uma pena!
Não voltou mais para a casa até o dia seguinte, quando realmente deveria ter voltado antes de tudo. Chegou a pensar até que a culpa havia sido dele – quem mandou voltar antes do combinado? “A ignorância é uma benção!”.
Foi ao trabalho. O dia demorou a passar, mas ele rezou para que demorasse ainda mais. Sabia que quando estivesse sozinho e com a mente desocupada não iria agüentar. Iria lembrar que os homens também choram… E como iria lembrar!
Chegou e abriu a porta com calma. Usou apenas uma das mãos. A outra segurava firmemente uma pistola calibre 38 que já fora de seu pai e do pai de seu pai antes dele. “É, já está na família faz tempo, e agora vai deixar a família menor”. Riu sozinho, mas não havia o menor resquício de felicidade em seu coração. Não mais. Havia chorado o tempo todo, desde que saiu do trabalho e entrou naquele trem, com destino a Zona Sul e em algum momento aquela água toda levara junto toda a felicidade. Lembrou de estar com pressa quando usou seu truque para passar pela catraca, queria logo chegar em casa e fazer o que tinha que fazer! Ele sempre estava com pressa, pensou – costumava trazer um pão de uma padaria que sua mulher adorava e precisava chegar rápido, antes que murchasse, era um pouco fora do caminho, mas nunca ligou de chegar um pouco mais tarde. Agora até isso lhe pareceu suspeito. Sentiu-se ainda pior.
Não é fácil matar uma pessoa. E, tinha como certo que a todo crime há um castigo. No caso de matar, ele chega muito rápido, muito. Leu em algum lugar que no máximo três segundos depois, enquanto a mão ainda dói queimada pelo calor excessivo e o cheiro de pólvora chega às narinas.
Não tinha certeza se seria capaz de fazer aquilo, mas foi. E não soube o que pensar de si mesmo. Sobre o corpo imóvel de quem amava profundamente chorou um rio de lágrimas. Havia enlouquecido, ou o mais próximo disso que já havia chegado na vida. Por que, diabos, teve de esperar que ela o abraçasse antes de apertar o maldito gatilho?! Deu vários golpes em si mesmo, mas sequer sentiu dor, nenhuma dor de nenhum golpe.
A última coisa que pensou antes de se atirar de cabeça contra a parede foi que a vida continuava… ao menos para alguns.
…
( 3 )
Um homem baixo de aspecto abatido e com olheiras de quem certamente não dormira a noite anterior – ou então chorara nada menos que um rio, ou então tomara bons sopapos na cara, ou então chorou nada menos que um rio depois de levar os sopapos – chegou próximo da catraca de embarque. Tomaria o metrô com destino à Zona Sul como sempre fazia. Ninguém o esperava e isso o fazia pensar. Ninguém o esperava, mas tinha pressa. As filas já haviam se estalado em todas as passagens… menos uma – aquela que precisava de um bilhete específico para entrar. Mas ele sabia um truque, o seu truque, que com certeza funcionaria outra vez. Tinha que funcionar! E funcionou. Só que, dessa vez, um menino que já havia visto algumas vezes naquele mesmo lugar disse algo e tudo mudou. Depois disso lembrou apenas de ter puxado o revolver do bolso de dentro da jaqueta e apertado o gatilho. O menino caiu morto aos seus pés.
Gostaria de só se lembrar disso pelo resto da vida. Que durou pouco, pois um dos seguranças o alvejou – aquele maior de cor parda que nunca vira lá antes, mas que portava uma arma no coldre e de quem nunca se esqueceria o rosto: o rosto daquele homem que chegava cada vez mais perto de sua “ex”-mulher duas noites atrás. Lembrou-se que a vida continua… ao menos para alguns, pois para todo crime há um castigo, e o daqueles que matam é bem rápido, não mais que três segundos depois. “Qual teria sido o crime do garoto?”.
Sentiu o sangue queimar na garganta quando riu pela última vez, estava caído ao lado do menino; dois guarda-chuvas jaziam junto deles e lhes faziam companhia… “Hei, cara, sua mulher ta te traindo de novo e você quer assistir de camarote, só pode ser isso, né? Vai dizer!”… “Como ele iria saber?”.
“Se nasce por sorte, se vive por nada e se morre por acaso”.